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23/06/2011 6:00

Eu também vou reclamar

Lá pelos idos dos anos de 1980, quando ainda era aluno do curso de Letras, li num encarte da “Folha de S. Paulo”, o “Folhetim”, uma entrevista com o gramático Celso Luft. Dizia o ‘Dino’ Luft: “de que adianta meu aluno saber todas as regras gramaticais se não sabe redigir uma frase problematizando as questões básicas de seu país?”.

No mesmo período entoava no rádio um rock controlado do quase anarquista Raul Seixas, que dizia assim: “Mas é que, se agora, Pra fazer sucesso, pra vender disco de protesto, Todo mundo tem que reclamar, Eu vou tirar meu pé da estrada, E vou entrar também nessa jogada [...]. Pois bem, vou entrar nesta parada “pra não dizer que não falei das flores”. Aprendi com os tropeços profissionais, pessoais e acadêmicos que “quem não tem visão bate a cara contra o muro”, ou seja, quanto mais informações eu tenho, quanto mais conhecimento processo eu, mais opções tenho, eu mais vejo; em vez de ver a árvore, vejo a floresta. A árvore, embora bela, não pode ofuscar minha visão e eu posso achar que uma floresta artificial de eucaliptos é uma floresta nativa de sibipirunas.

O que disse Luft faz parte de um grande embate dos anos 1980: questões relacionadas à competência técnica e ao compromisso político. Que em determinado momento pareciam antagônicas, porém o Demerval Saviani problematizou como partes essenciais de um todo que, em sua complexidade consistiria em formar, por exemplo, o especialista em educação e o professor em um educador.

A competência técnica diz respeito a saberes básicos que todos os profissionais devem dominar – para ser jornalista, saber dentre outras coisas o uso da língua; para ser médico, anatomia; para ser um jurista, noções sobre o estado e a filosofia do direito; para ser um professor, ter domínio sobre sua área etc. Ora, devem estar pensando os leitores, nada mais lógico. Direi então: para ser engenheiro deve-se ter cursado cálculo, que, na minha “leiguice”, deve servir para que o prédio seja erguido e fique em pé.

O compromisso político diz respeito à minha compreensão de mundo, de homem e de sociedade. Como fazer deste um melhor mundo, desta uma melhor democracia, deste um melhor menino? Qual é minha articulação como os moradores da periferia? Como trato meus clientes? Como trato meus alunos? Quais as considerações que tenho por eles? Ou são meus clientes e trato-os como mercadoria?

Pois estes elementos precisam ser destacados quando se fala em língua culta e linguagem vulgar, em falar certo ou falar errado.

As políticas educacionais no Brasil sempre sofreram inconsistências e inconsequências. Na verdade, nunca tivemos políticas, mas programas de governo. O Plano Nacional de Educação, para se ter uma ideia, não foi aplicado em sua totalidade desde a sua promulgação, em 2001. Então, tudo que tem origem no palácio ou no castelo deve suscitar dúvidas por parte de um bom educador. É o caso da polêmica atual a respeito do livro indicado pelo MEC sobre a aceitação do falar coloquial.

Por trás desse falar coloquial, temos duas fragilidades: a competência técnica e o compromisso social e político desses professores. É este, penso, o cuidado que temos que ter, quando tratamos de matéria como esta.

Antonio Bosco de Lima
Professor na Faculdade de Educação/UFU

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