Inovação é o futuro
Tinha um professor que me dizia que o cemitério está lotado de boas ideias que jamais se tornaram conceito e, por isso, nunca chegaram a ser projeto, muito menos protótipo ou produto. Um novo conceito pode dar nova forma a um produto estabelecido ou já envelhecido. E, neste caso, teríamos uma inovação. O exemplo da criação do antigo walkman da Sony é clássico. Até o seu lançamento, o conceito de um equipamento de fita cassete era ”um dispositivo que tocava música gravada em uma fita cassete” e o principal interesse dos usuários estava na dimensão “qualidade do som”.
No lançamento, Akio Morita mostrou ao usuário uma nova função para o dispositivo, em que a portabilidade e a vida da bateria proporcionavam ao feliz comprador a oportunidade de curtir sua música em ambientes novos e inspiradores, e este foi o estudo de caso mostrado pelo prof. Ken Kusunori da Universidade de Hitotsubashi de Tóquio, no Japão, no artigo “Diferenciação de Valor: Organização do Know-What para a Inovação do Conceito de Produto”. Segundo ele, o conceito de produto capta o valor essencial do produto para o cliente, respondendo a pergunta “O que é o produto para o cliente, realmente”? Assim, a essência da inovação do produto envolve mudanças das dimensões pelas quais os usuários avaliam o produto. Na perspectiva do novo conceito criado pelo walkman, sua qualidade de som, relativamente baixa, não era um aspecto assim tão importante.
Baseados nesta e em outras experiências de inovação – principalmente as da internet, como a criação de sites de compras coletivas -, precisamos refletir sobre o que queremos em termos de políticas públicas de C&T – Ciência e Tecnologia. A criação há 25 anos do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), infelizmente, não integrou políticas públicas de inovação à agenda econômica do país, como já fazem os países da OCDE , a China e a Índia. Mas colocou esta importante ferramenta do futuro em uma ilha — as universidades, principalmente as públicas – a que não tem acesso irrestrito o setor produtivo nacional. Este erro estratégico fez com que a inovação passasse a ser identificada como demanda da comunidade científica e não como elemento de desenvolvimento. Resultado?
Pesquisa-se muito em inúmeras áreas do conhecimento, todavia os resultados dessas pesquisas não chegam ao setor produtivo, porque os instrumentos usados pela academia para tratar da inovação, na maioria das vezes, não são adequados às empresas. Há anos acompanho a nossa querida UFU (sou engenheiro mecânico da turma de 1974). Como empresário e consultor de empresas, sinto na pele esta questão. Vejo as necessidades das organizações produtivas, notadamente as pequenas e médias, e o milionário orçamento da universidade apenas tangencia o assunto, não encarando o desafio da criação e fortalecimento de empresas inovadoras, e sem gerir adequadamente a capacidade de inovar, criar competências internas e administrar redes do conhecimento. É como se o dinheiro que a sustenta não saísse do setor que emprega 90% das pessoas deste país. A crítica é construtiva. Devo muito a esta instituição pelo que sou hoje, talvez por isso a torne pública, certo de que trará reflexões e ações para o futuro da inovação no Brasil.
José Carlos Nunes Barreto
Professor-doutor pela USP
debatef@debatef.com.br
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