Língua é comunicação
Muitos têm reclamado do novo livro do MEC, que diz ser correta qualquer linguagem usada por par¬te do povo. Gente, é óbvio que o livro – e sua defensora, a professora Viviane Moraes, em artigo neste jornal no dia 23/5 – está certo. Língua é comunicação e isto chega. Se falo e tu entendes, basta, uai!
Bem sabemos (ou devíamos saber) que, em poucas gerações as pessoas dum local não mais poderão se comunicar com as de outro, afinal a língua “evoluirá” de forma diferente em cada lugar. Olha só que ótimo: no futuro seremos como a Itália ou Alemanha, países nos quais uma pessoa do norte não consegue falar com outra do sul! Mas eles são desenvolvidos, logo os errados somos nós, que ainda podemos percorrer uma região maior que a Europa com a mesma fala! Acabar com essa ma¬mata não será um presentão para as próximas gerações?
Como disse a professora Viviane, “já foi constatado (…) que o preconceito lingüístico é uma forma po¬derosa de afastar os alunos da escola, que pode levar inclusive à evasão escolar”. E ela, mais uma vez, tem razão. Só que temos de ampliar isso: é absurdo que os professores de matemática exijam que os alunos acertem problemas difíceis só para que saibam cousas que lhes serão úteis na vida. Isto também leva à evasão escolar e, lógico, é inaceitável. Precisamos é de escolas cheias e não, nunca, de novos métodos de ensino das velhas verdades. Se há evasão, que se suprima a matéria!
Diz a professora que é bom que o aluno tenha seu conhecimento prévio levado em conta. OK! En¬tão, corrigir um aluno que acha que D. Pedro I descobriu o Brasil (como muitos pensam) pode levá-lo a um trauma. Afinal, que diferença isso fará? Nada de norma culta, de matemática, de geografia… Importa que ele não evada, pois, supor que se entre numa aula para aprender cousas novas, ainda não sabidas, é equivocado.
Como bem nos ensinou a professora Viviane, as críticas à nova forma de se ver nossa língua pretendem apenas “preservar o caráter erudito da linguagem, reservá-la a poucos”. O fato de que se perderá o (já fraco) élan para se estudar a norma culta e, com isso, impediremos às novas gerações a apreciação de todas as obras escritas até hoje é de somenos. E olha que, para mim, língua também era comunicação através do tempo, mas agora sei que ler o original das obras de Machado de Assis, padre Antônio Vieira ou Eça de Queiroz – entre tantos outros gênios do passado – é irrelevante para nossos pósteros. Valeu, “profa”!
Mas, oba! A professora reconhece que o ensino da norma culta “é fundamental para que os alunos participem plenamente da sociedade”. E completa: “o uso do livro didático do MEC está vinculado à atuação de um professor, profissional qualificado e preparado para contextualizar as propostas do livro”. Ah, bom! Agora entendi. Só que existem licenciados em português que não colocam um pronome e um verbo juntos… E estão em sala de aula… ensinando!!!
A docente termina com uma inquietante questão: “você nunca utiliza a linguagem informal?” Devo confessar que sim, eu a uso. Obrigado, professora, por me dizer que isto basta para fazer da dita “linguagem informal” algo certo. Levando a mesma lógica para outras disciplinas, devo supor que eu não estava errado quando, guri ainda, achava que a cidade do Rio de Janeiro era tão grande que era, ela mesma, um Estado, cuja capital era Niterói – isso no tempo do extinto Estado da Guanaba¬ra. Se não há erro em português, por qual razão ele existe em geografia?
Deolindo Menck
Professor
deolindo.menck@gmail.com>
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