Safomania
Não havia assunto que não dominasse. Sabia de tudo, e muito. Se a prosa fosse sobre carros, não perdia tempo em descrever detalhes mecânicos, potências, cavalos e defeitos. Ah sim, defeitos. Para tudo que alguém mencionava havia um defeito que só ele percebera. Nem os técnicos mais experientes, projetistas mais renomados, podiam com seu olhar crítico e conhecedor:
— Se aquela manivela estivesse mais inclinada, a força do vento que entra pelas fissuras do chassi, deslocaria e a força centrípeta e aderência seria melhor.
Ninguém se atrevia a discordar; Primeiro que, ninguém, nem os especialistas entendiam bulhufas dos argumentos do cidadão e mais, se um olhar, uma expressão por menor que fosse desse a entender que discordava, aí sim virava bicho. Além da verborréia costumeira subia também o tom de voz, passava quase a gritar, como se o esbravejo pudesse impor vontade.
Conversa de suspiros. Cansativo monólogo.
Se o assunto era futebol, meu santo protetor de ouvidos maltratados, o cara conhecia tudo. Até hoje não sabemos como não foi escalado para técnico da seleção brasileira de futebol e também é claro, da seleção nacional de basquete, vôlei, pólo aquático, salto com vara e até nado sincronizado.
Era divertido. Quando não tínhamos absolutamente nada para fazer, logo vinha um e jogava a isca, puxava assunto mais sem pé nem cabeça para a hora. Certa vez foi física quântica. Pelo que dele ouvimos deu a entender que Max Plank poderia ser seu assistente, e que a “catástrofe do ultravioleta”, definida pela fórmula de Raylegh-Jeans, seria criação sua.
Mas havia sim um assunto em que se fazia calar. Quando falávamos de amor, de sentimento, do querer ao próximo, de beleza e simplicidade. Não vinha de lá um murmúrio, um rosnar, um comentário. O sofômano é solitário e infeliz.
Novo ano aproxima a galope e é de importância ímpar para nós munícipes. Temos um prefeito e vereadores a eleger. Posso parecer precipitado, afinal ainda se faz julho. Mas é desde agora que temos de prestar muita atenção nos sabe-tudo que aparecem como heróis salvadores da pátria. Muitos querendo se passar por sábios, donos de fórmulas mágicas para problemas crônicos da humanidade. Megalomaníacos de plantão, com projetos e soluções para tudo, de unha encravada a trem bala ligando Uberlândia à Disney, a Brasília, a Terra do Nunca, ou a outra imaginária Pasárgada. Não aquela de Manuel Bandeira, pois o objetivo é ser o rei e não amigo dele.
Atenção especial na sensibilidade, no caráter, na postura humana e no poder de doar, pois aí questionados, os sofômanos de plantão se calarão, não terão ação, opinião ou posição clara. Destes pelo menos poderemos nos esquivar, e fazer escolha certa, como no maravilhoso poema de Bandeira, seremos felizes para fazer ginástica, andar de bicicleta, montar burro brabo e subir em paus-de-sebo.
Não que queiramos ser amigos do rei. Queremos e merecemos que o “rei” seja justo e governe com clara firmeza para o bem comum. Não podemos nos deixar levar por embromações, em conversas sem fim, de gente que só escuta o ego, e olha apenas para o próprio umbigo “achando feio o que não é espelho”. Disse Charles de Coster: “Ó respeitáveis enganadores que troçais de mim! Donde brota a vossa política/Enquanto o mundo for governado por vós?” Escuta Zé, escuta.
William H. Stutz
Veterinário sanitarista – whstutz@gmail.com
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Thogo Lemos disse:08/07/11 7:08
Como sempre, muito bom artigo, Dr. Willian. Há mais diferenças entre candidatos do que a cor da camiseta e a capacidade de iludir. Com liberdade e informação, seremos cada vez mais capazes de identificá-las. O cabresto deve estar em nossas mãos, assim como a tarefa de manter o nível da política em nossa cidade.
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