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9/07/2011 6:00

Grilo recheado

Quando o assunto é inseto, logo se pensa em mosca, mosquito da dengue, barata, pernilongo. Mas ao lado dos insetos nocivos ao homem (poucos, quando se considera que existem mais de um milhão de espécies de insetos), existem centenas de espécies benéficas. Citando alguns exemplos: o incrível avanço da genética nos últimos anos se deve em parte aos estudos com a mosquinha da banana, a Drosophila; a maioria das plantas que floresce no mundo depende de insetos como abelhas, vespas, moscas e besouros para a polinização; os insetos saprófagos decompõem cadáveres de plantas e animais; os insetos do solo promovem aeração e aumento da matéria orgânica; produtos derivados dos insetos, como mel e seda, movimentam industrias milionárias.

Alem disso, insetos servem de alimento para muitos animais e para o homem. A entomofagia, hábito de comer insetos, surgiu com os primeiros hominídeos. O povo asteca já se alimentava com dezenas de espécies de insetos: assados, fritos, ao molho, fervidos, secos. Atualmente, são consumidos por diferentes povos em diferentes regiões do mundo. Por exemplo, pupas do bicho da seda são consumidas na China e Japão como biscoito e vespas adultas, na forma de churrasquinho. Ovos de percevejo são o caviar dos mexicanos e os percevejos adultos servem como condimento do alimento, torrados e moídos com pimenta.

Lagartas de mariposas são comidas normalmente no Zaire e dez delas são suficientes para suprir as necessidades diárias de um adulto. Gafanhotos africanos cozidos em água salgada são vendidos nos mercados de Marrocos. Tanajuras torradas são usadas como tira gosto em Pernambuco. Larvas assadas de vespas são comidas com farinha pelos índios brasileiros. Insetos enlatados são vendidos nos mercados americanos (mas o preço é alto). As lagartas fritas são comidas como cereal e os gafanhotos fritos são usados em pizza.

Mas muitas pessoas possuem aversão por comer insetos (inclusive eu), o que é muito mais cultural do que cientifico ou racional. Afinal de contas, outros invertebrados, como ostras e scargots, escorregadios e gosmentos, fazem parte da dieta humana. E a “carne” dos insetos tem os mesmos componentes das outras carnes, mas tem muito mais proteína e vitaminas, representando uma poderosa fonte alimentar para o mundo que passa fome.

Como tudo é uma questão de hábito, pesquisas mostram que as pessoas podem comer insetos, desde que apresentados em alguma forma disfarçada. Estudantes de entomologia comeram prontamente insetos cobertos com chocolate e brigadeiros com farelos de grilo. Por outro lado, comemos insetos (ou seus fragmentos) todos os dias: alface e couve possuem pulgões diminutos; o arroz é altamente infestado por insetos; a farinha do pão possui pequeninos e inúmeros fragmentos de insetos; sucos de tomate, maçã, manga e goiaba possuem insetos triturados dentro de um índice aceitável pela saúde publica (isso aumenta o valor nutritivo dos produtos).

Assim, como todos nós já comemos inseto (afinal, “bicho de goiaba, goiaba é”), segue uma receita picante de grilo recheado. Ingredientes: uns dez grilos e amendoins.

Retire a cabeça dos grilos e o final do abdômen. Remova o intestino. Insira amendoins torrados no abdômen. Frite os grilos limpos e recheados na manteiga ou no óleo. Polvilhe com sal e sirva (retirar as asas e pernas antes de comer). Enfim, bom apetite!

Ana Maria Coelho Carvalho
anacoelhocarvalho@terra.com.br

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