Filosofia para crianças?
O senso comum geralmente compreende a Filosofia como uma espécie bastante específica de conhecimento mais apropriada a adultos devido à sua pressuposta complexidade. As crianças, a priori, não seriam capazes de aprender conceitos, temas e procedimentos filosóficos de modo significativo.
Todavia, experiências nem tão novas assim comprovam justamente o contrário. A criança é, seguramente, capaz de filosofar. E a Filosofia pode, sim, ser ensinada nas primeiras séries do ensino fundamental em nossas escolas.
Segundo o filósofo grego Aristóteles, “a Filosofia começa com o assombro”, com o espanto diante do mundo, da vida, dos seres, dos fenômenos e das coisas. E essa conhecida definição aristotélica mostra com enorme clareza que a infância e a Filosofia guardam enorme cumplicidade. Possuem uma relação, antes de tudo, natural.
A infância é uma fase da vida marcada por um grau maior de franqueza e de espontaneidade que a fase adulta; caracteriza-se também por descobertas, mudanças, grande curiosidade, abertura para o novo, o diferente e o desafiador.
E todas essas qualidades a infância partilha com a Filosofia. Pois filosofar é preocupar-se com o essencial. É desassossegar o mundo com questionamentos fundamentais. Por quê? Como assim? De onde viemos? Para onde vamos? O que é a verdade, o amor, o tempo, o conhecimento?
Com efeito, as crianças não são apenas capazes de realizar esse tipo de investigação. Esses questionamentos lhe são naturais. A infância é um período da vida humana extraordinariamente propícia ao filosofar. É o que comprovam as diversas experiências de educação filosófica para crianças espalhadas pelo mundo.
O pioneiro nessa empreitada foi o educador americano Matthew Lipman, em meados da década de 60. Hoje, aproximadamente 50 países adotam a Filosofia como disciplina obrigatória em seus currículos das séries iniciais (ensino fundamental). Estima-se que, atualmente, a Filosofia seja aplicada para crianças em mais de 2,5 mil escolas apenas no Brasil. Há mais de 12 mil professores habilitados e capacitados. Mais de 500 mil crianças já tiveram contato com a reflexão filosófica na educação formal brasileira, a partir de experiências muito bem-sucedidas.
O ensino de Filosofia pode, entre outras coisas, possibilitar à criança o desenvolvimento de uma consciência crítica, criativa, reflexiva e sensível em relação a si mesma e à realidade que a cerca. Pode ajudá-la a desenvolver atitudes éticas diante do mundo a partir da reflexão e do debate sobre valores existenciais essenciais. E, desse modo, praticar uma cidadania cada vez mais consciente.
Nas aulas de Filosofia as crianças exercitam o conhecer de modo interdisciplinar, aprendem a ler textos filosóficos significativamente e a ler filosoficamente o grande texto da vida e do mundo.
A Filosofia pode ser ensinada às crianças e o espaço mais apropriado para essa atividade é, seguramente, a escola. A educação filosófica não é a panaceia das escolas brasileiras. Todavia, pode contribuir de modo significativo para sua evolução. Conforme Merleau-Ponty, “a verdadeira Filosofia consiste em reaprender a ver o mundo”. E reaprender a ver a realidade é o primeiro passo para transformá-la!
Mauro Sérgio Santos – Professor de Filosofia
Academia de Letras – Araguari (MG)
mauro.filos@hotmail.com
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Lúrian Leite disse:11/07/11 19:00
Texto emocionante! “Filosofar é preocupar-se com o essencial”, sendo assim, é essencial que nos preocupemos com a filosofia e o ensino desta desde muito cedo.
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Letícia Leite disse:21/07/11 20:35
A doce leitura deste texto provoca-nos uma reflexão amarga: se as crianças são questionadoras por natureza, quem são os assassinos de sua espontaneidade filosófica?
Parabéns ao professor Mauro Sérgio, através de sua excelência nos ensina de maneira simples e eficaz.
Comentários (2)