Ode à rebeldia
Na infinita procura da verdade está a semente da inquietação. (Nietzsche)
Num brilhante artigo para a “Folha de S. Paulo” (11/10/09), o psicanalista Roberto Mezan nos convida a refletir sobre a violência e os ataques à liberdade que crescem entre nós, com facilidade, rapidez e crueldade.
Mezan cita Freud que em “Psicologia das Massas e Análise do Ego” fala dos mecanismos psicológicos capazes de criar nas “massas artificiais” a disciplina e o devotamento cego ao líder. Tal líder é colocado pelo indivíduo no lugar do seu superego e a ele se obedece cegamente, enquanto figura de identificação, de grande Pai.
E aqui mora o perigo. Compartilhando a crença cega na doutrina proposta, o indivíduo abdica de sua faculdade de pensar por si mesmo. E o mundo se divide em dois: de um lado, os bons, os que aplaudem a doutrina proposta, do outro, os maus, os demais.
E o indivíduo se deixa levar poderosamente pelo desejo de agradar ao líder e à doutrina, não importando a que preço, tudo se justificando em nome deles (doutrina e líder), inclusive as ações que se aproximam do desvario, do desrespeito, da delinquência. Como fenômeno ilustrativo, Mezan cita o nazismo alemão, cujo “führer”, demagogo e enlouquecido, teve seus discursos e iniciativas aplaudidos por milhares, durante vários anos.
Para compreender também o fenômeno totalitário, o texto de Mezan cita a contribuição do escritor Victor Klemperer que revela em livro a manipulação da linguagem levada a cabo pela “Língua do Terceiro Reich”. Analisando jornais, revistas, cartazes, livros, conversas e discursos de representantes do regime, Klemperer mostra como aquela ideologia absurda e cruel se entranha “na carne e no sangue das massas”.
Frases e expressões nazistas, impostas pela repetição e pelo controle absoluto dos meios de comunicação, vão sendo aceitas de forma mecânica e inconsciente, moldando a autoimagem do alemão e justificando a barbárie, por mais absurda que fosse. O livro de Klemperer revela como a criação de novas palavras, o uso abusivo de superlativos, a ênfase declamatória, o exagero, a mentira, a calúnia, e tantos outros artifícios, se somam para apagar todo traço de nuance, toda reflexão, toda crítica. O resultado só podia ser um: a alienação.
A partir das contribuições de Freud e Klemperer, Mezan nos fala da imensa capacidade do ser humano para obedecer sem questionar. E dos perigos ligados à obediência cega ao líder. O nazismo negava a exceção para afirmar a massa, o chefe, o rebanho e o pastor.
O artigo de Mezan nos adverte: também hoje, sob os mais diferentes pretextos, somos solicitados a nos comportar como rebanhos. Impõem-nos um pesado silêncio. Querem calar nossa voz diante dos enganos, dos delírios de grandeza, das arbitrariedades, dos caminhos travados. E instalam, sem pudor, o desrespeito. O desrespeito absoluto pela liberdade do outro.
Portanto, rebelemo-nos! Há que dizer um redondo NÃO à rota indicada para o rebanho; e há que dizer SIM à encruzilhada que nos acena com outros caminhos, outras e surpreendentes possibilidades e descobertas. Reafirmemos com o filósofo Nietzsche nossa vontade de triunfar do nada, a vontade de durar, de crescer, de vencer, de estender e intensificar a vida, para vencer a fatalidade, o aniquilamento, a catástrofe trágica. Sobretudo, reafirmemos o respeito absoluto pelas diferenças, pela liberdade do outro.
Shyrley Pimenta
Psicóloga clínica
Uberlândia (MG)
ivsant@terra.com.br
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