Essa não!
Passava das nove da noite e Dona Josina descia a rua, equilibrando-se entre os buracos que a chuva forte enchera de água enlameada. Que vida, Deus! Começara o dia bem cedo, dando suas aulas de História, varando manhã, tarde e parte da noite tentando que os alunos aprendessem que a matéria, mais que decorada, deveria ser entendida. Dona Josina adora História, gosta de andar por suas trilhas descobrindo o encadeamento dos fatos que ligam o passado ao presente e até o futuro. Pensativa, bolsa desbotada amarrada contra o peito que as sombras fugidias escondem segredos, a professora ligou-se ao que anda acontecendo neste Brasil lindo e fagueiro.
Violência, que atenta contra as pessoas e as instituições, nem é bom pensar! Cada um se protege como pode, mas a marginália anda sempre à frente, descobrindo meios de quebrar barreiras. Um político disse certa vez na TV que os bandidos são mais inteligentes. A professora acredita não. Acha, sim, que dispõem de mais tempo para artimanhar maldades e realizar intentos criminosos. Afinal, esta é a sua profissão.
E a tal da impunidade e leis cada vez mais generosas para aqueles que as desprezam fortalecem a lógica do “espaço é pouco nos presídios, lugar de bandido é na rua”. E não se fala mais nisto. Parece até aquela história do distinto senhor que, defrontando-se com a traição de sua distinta esposa no sofá da sala, achou por bem desprezar o sofá… Ah! Fosse no Japão, pensou D. Josina, tudo seria diferente… Agarrou-se com cuidados à bolsa desbotada, que sombras fugidias escondem segredos…
Continuou a divagar. O seu patriotismo e fé na Pátria estavam tomados de sonolência com as notícias que enchem as páginas dos jornais, os programas de TV e fazem parecer que uma máfia apoderou-se deste nosso Brasil gigante. Ministros, diretores, funcionários públicos vão caindo um após outro em efeito dominó e o dinheiro suado do povo voeja rápido para mãos inescrupulosas. Será quantas “babás” serão necessárias para vigiar, espreitar, proteger o erário público? Quando é que os brasileiros terão o prazer e a honra de descobrir que não pagam impostos inutilmente? Quando será que a nossa confiança deixará de ser abalada, como tem sido atualmente, por escândalos que se sobrepõem e parecem não ter fim?
De repente, um susto! Dona Josina respirou fundo, ouviu passos às suas costas. Apressou-se. Os passos também. Até que segura pelos braços não teve mais o que fazer. Abaixou a cabeça, deitou o olhar, humilde e vencida. Súbito, um brilho relampejou nos olhos de um dos moleques que a segurava, olhos até então gelados, sem medo, sem piedade. Com um cutucão no companheiro resumiu a prosa: “Epa! Essa não. Foi minha professora na 6ª série, tá ligado, veio?” Saíram os dois correndo, sem perpetrar o roubo. A respiração de D. Josina voltou devagar e ela, agarrada à bolsa, caminhou rápido rumo a casa. Pensou aliviada: Ser reconhecida como professora numa hora destas é tudo de bom!
Qualquer semelhança com fato verídico é pura realidade, pelo menos na parte que toca ao quase assalto. E seria bom que os professores e educadores fossem respeitados e valorizados por quem de direito. O caminho para um país melhor, mais justo e respeitável não se constrói sem grandes investimentos na educação.
Marília Alves Cunha
Uberlândia (MG) mariliacunha16@hotmail.com
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