Parábola para drogas
Desculpem-me mais uma vez os meus leitores: volto a escrever sobre as drogas na sociedade. Já falei e escrevi muito por aqui em nossa terra. Infelizmente meu berrante é pequeno e de pouco alcance: não pula nosso triângulo de lados no Paranaíba e no Rio Grande.
Sei que neste Brasil qualquer coisa só anda se tem muita participação política ou no dinheiro. Aliás, se possível e de preferência, os dois juntos. Já mandei meu pensamento e preocupações até para a presidente Dilma – por interposta pessoa de seu conhecimento e amizade. Resposta zero: é de facilidade e coragem ela meter o pé na bunda de ministros e sujeiras políticas – mas a guerra da droga é intocável.
Penso que até o bom Deus prefere ocupar-se das guerras mortíferas entre países lá do Oriente do que aspirar maconha e crack no mundo todo. Penso que Gabriel – o anjo prudente e cronista – sopra aos ouvidos divinos que seu filho Jesus foi judiado e morto lá naquelas terras, o que justifica dar-lhes atenção e cacetadas mortíferas. O resto fica pra depois, e nós somos o resto.
Para aliviar conto o tio Elias explicando o caso do parente Lucas com o coronel Randolfo, importante figura dos Borges e deste Triângulo. O tal Lucas, a que acrescentaram o prefixo “parente”, era artigo que algum Borges fabricou no mercado paralelo, mas de que todos gostavam. Andava ali pelos campos de Água Limpa e do Tijuco, zanzando pelos parentes.
O coronel Randolfo era caçador de viados – naquela época só existiam nos campos – e toda vez que topava o parente Lucas no cerrado estumava a cachorrada em cima dele. O parente trepava apavorado no primeiro pau-terra possível, a cachorrada acuava em baixo.
Sem dizer palavra o coronel chegava ali em baixo, apontava sua calibre 12 um palmo pra cima, e rastava fogo no parente – que naturalmente caia da árvore, o coronel buzinava e se retirava com a cachorrada. Passado o susto o parente levantava, mijado ou coisa maior, e tomava seu pensativo rumo.
Um dia oportuno este Lucas perguntou: parente Ranulfo, donde esta implicância? Ranulfo era palavra de lei, explicou: parente, a mágoa é de outra geração.
O compadre Randolfo, ainda moço, te conheceu, você era uma mulatinha bonita e safada, um dia fugiu com um soldado metendo o chifre do coronel – mas deixou esta mágoa até hoje, né? O parente Lucas pensou um pouco, encheu os olhos de lágrimas, e soluçou seu entender: parente Ranulfo, se foi assim, e eu tão vagabunda, o coronel tá com a razão!
Companheiro leitor,
Cristo usou parábolas. Para mim, a droga revive o parente Lucas, miserável rondante pelo mundo afora. Atacada, ela não é a maior culpada. Grandes e culpados são seus usuários para ganhar dinheiro, política e a degradação social.
Eles se unem em acuar na árvore o seu crime – e dão tiros demagógicos para cima. Eu já escrevi a tudo e a todos: é impossível e demagógico matar a droga, tem muito interesse em sua presença. Liberá-la total? Besteira maior.
Entretanto, fazê-la descer da árvore, ser entendida, enjaulada e segregada socialmente… eu sei que é possível. Agora, quem vai escutar-me, quando na minha juventude a droga era apenas pinga e fumo de rolo?
João Gilberto Rodrigues da Cunha
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