Dá-lhe, Dilma!
Não precisava mais esta demonstração de que o Brasil é um país diferente. Num país assolado pela corrupção e pela impunidade e cujo povo se diz indignado, cai a popularidade daquela que encabeça um movimento de “faxina ética”. Acalmem-se, críticos: não votei na dona Dilma, não acredito cegamente nela nem em duendes. Mas, terminada a eleição, somos todos responsáveis pela condução de nossas vidas, independentemente da cor da camiseta ou das convicções e ilusões que nos movem. E é indiscutível o valor da iniciativa da presidente.
Antes da posse, pensei que a dona Dilma poderia entrar para a história caso tomasse algumas decisões difíceis e, portanto, improváveis. Primeiro, afastar de si o conceito de que seria simples sombra do comandante Lula, mantendo ocupado o assento até que o redentor retornasse. Sob o delírio consumista, com os camelódromos da Afonso Pena ou de Miami lotados, naquele momento embarquei na onda de que tsunami lá, marolinha aqui. Restaria, então, à Tatcher dos trópicos, a coragem para reorientar a política externa, corrigindo as lambanças do atual ministro da defesa.
Muito mais improvável seria restabelecer o marco ético para a sociedade. Sim, fala-se tanto em marcos regulatórios para a economia, concessões, serviços públicos e não se fala na importância da elite, neste caso o governo, como referencial de comportamento. O míope comandante, que só enxergava muito longe, mas não via nada que ocorresse próximo às narinas, deu lugar a alguém que parece disposta a levantar o tapete, abrir o saco de lixo.
O cheiro parecerá insuportável, mas não há meio termo: ou se revira as entranhas ou continuamos vivendo no putrefato país das maravilhas, abençoado por deus e corrupto por natureza. Surge um incipiente movimento de apoio dos senhores congressistas à luta contra a corrupção. Calma: sei que parece piada políticos brasileiros apoiando luta contra a corrupção. Podem ser os dedos que se vão, na tentativa de salvar a mão larapia e suja, como foi com o Collor ou alguns outros bois de piranha. Mas o chiqueiro está tão podre que até as tetas benevolentes da porca gorda podem secar.
Agora, só resta saber onde está a sociedade, onde estamos nós. Chegou a hora, já tarde, de mostrarmos o quanto somos contra a corrupção e a impunidade. Nossas entidades representativas nos levarão às ruas? Aliás, precisamos delas para mostrar nossa indignação? Claro que não falo dos sindicatos, nem da UNE, nem das universidades, cuja prioridade passou a ser a luta pela preservação do partido e do conceito fundamentalista, raso e maniqueísta de que todo mal foi criado pelo FHC e todo o bem só pode emanar do Lula. Será que sairemos às ruas sem que seja pela seleção brasileira ou atrás do trio elétrico? Será que nos mobilizaremos por algo que não seja o “Big Brother”? Melhor parar por aqui, pois tenho medo das respostas.
É isso, dona Dilma. Espero que a senhora confirme minha impressão de que prefere entrar para a história como alguém ligada à ética, à moralidade e ao respeito pelo bem público a ser lembrada como ocupante tampão desse balcão nojento, dessa fossa em que se transformaram a política e a sociedade brasileiras. O fato de as pesquisas mostrarem que os brasileiros confiam mais na senhora (por volta de 70%) do que no governo (menos de 50%) pode significar que ainda há esperança. Enfim, temos duas tarefas difíceis: acreditar na senhora e, muito mais penoso, acreditar em nós mesmos.
Thogo Lemos
Médico – Uberlândia (MG)
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