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3/09/2011 7:40

Educação e publicação

Uma das alegrias de qualquer pesquisador é ver um trabalho seu publicado. Todas as vezes que isso acontece, a impressão que se tem é que nasceu mais um filho. Pois, em recente viagem de reconhecimento de um curso de Engenharia de Automação e Controle pelo MEC, recebi a edição impressa do artigo “A implantação do Sistema de Gestão Integrada (SIG) em Laboratórios de Análises Clínicas e Biomédicas” das mãos do editor da revista “Sinergia”, do Instituto Federal de Tecnologia de São Paulo. Sou coautor, com um brilhante ex-aluno do Pós em Gestão Ambiental da Uniube, Paulo Henrique Lopes Alves, que faz parte com outros atores de minha rede de ciência e tecnologia. Em uma época de escassez de talentos, muito me honra esse tipo de parceria, pois 30% dos entrantes de uma pós não concluirão o TCC-Trabalho de Conclusão de Curso, no caso um artigo científico. O porquê disto é o que procuraremos analisar neste artigo. E os outros 70%? Desses, 50% fazem o trabalho apenas para cumprir as etapas para obtenção do diploma e o restante é que são a matéria prima para desenvolvimento de cientistas, pesquisadores e gestores em nível de excelência.

Um dos quesitos avaliados pelo Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes) é exatamente a publicação ou produção científica do professor que trabalha em faculdades isoladas, centros universitários e universidades do país. O indicador de desempenho é, pelo menos, um artigo por ano nos últimos três anos anteriores à avaliação. E não raro encontramos 70% dos professores, inclusive mestres e doutores sem publicação nenhuma – zero, o que explica a reprodução desta cultura nas pós-graduações Brasil afora. Esta visão é muito preocupante, pois uma publicação científica é a porta para a Academia compartilhar com a sociedade os resultados das pesquisas e é o passo inicial para futuras patentes, inovações e melhorias incrementais em processos industriais e de serviços.

Que causas eu colocaria para explicar este desastre? A primeira, a comoditização do ensino superior, com megagrupos de ensino gerindo a educação no país como se fosse um supermercado ou um banco, implantando modelos que tornam precário o trabalho do docente, horista, em várias escolas e sem tempo nem sequer de preparar adequadamente as aulas para mais de cinco disciplinas diferentes. Como irá ele pesquisar e publicar?

A segunda causa é a metodologia utilizada nos Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs), que não detalham etapas de iniciação científica ligando seus resultados às metas, que levarão alunos e professores a inovar e publicar. Por último, eu citaria a desmotivação e o desencanto: após o sonho do mestrado e doutorado em assuntos apaixonantes, muitos docentes são obrigados a dar aulas de disciplinas que nada têm a ver com seu foco nos últimos anos, pela necessidade de sobrevivência.

Para resolver este problema, alguns planos de ação precisarão ser desenvolvidos como políticas públicas. Eu começaria pela motivação. Sou obrigado pelo protocolo a fazer reuniões com professores e tenho visto muitas “lamparinas apagadas”, olhos opacos e sem brilho. É mandatário acender de novo essas lamparinas e transformá-las em faróis para o bem do Brasil e das futuras gerações. E não é só dinheiro e plano de carreira que fazem isso, vide as federais em greve. É necessário colocar as pessoas no lugar certo, estimulá-las e desafiá-las. Finalizando, adotaria as melhores práticas em gestões de cursos privados e públicos para servirem de padrão e colocaria o MEC para intermediar a troca desses procedimentos de excelência em todo o território nacional. Podemos virar esse jogo!

José Carlos Nunes Barreto
Professor-doutor
debatef@debatef.com.br

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