Bem perto da vida
Autoridades religiosas afeitas aos dogmatismos e a certas verdades estabelecidas condenavam – e ainda hoje o fazem – a leitura de certos autores e obras. Por uma razão simples: as personagens da ficção revelam ao leitor o gosto da liberdade que a imaginação dá, possibilitando um olhar pessoal, consciente sobre as coisas, a sociedade, os homens e seus múltiplos embaraços. A ficção obriga-nos a pensar por nossa própria conta e risco.
George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, novelista britânica, já afirmava que a ficção é a coisa mais próxima da vida. A ficção leva-nos mesmo a desconfiar da razão como nossa última tábua de salvação. Esgotado com tanta animosidade, com estilhaços de guerra pipocando aqui e acolá, mesmo entre nações vizinhas e irmãs, o homem contemporâneo flerta acintosamente com a morte.
Talvez seja chegado o tempo de, tal como os santos e profetas antigos, refugiarmo-nos no deserto simbólico da ficção, sobretudo da poesia, perseguindo uma nova era de introversão, buscando a iluminação, novas dimensões perceptivas, respostas mais efetivas para nossa crise existencial. Isso porque nossa atual dependência tecnológica tem produzido seres uniformizados, fraturados, historicamente alienados, enredados nas teias de grandes ou pequenas tramoias.
A ficção quer nos aproximar da vida, da verdadeira vida, que não se resume apenas a palavras ditas ou escritas por este ou aquele escritor (ancorado na autoridade que lhe confere o sucesso de crítica ou de público). A ficção mesma afirma, com todas as letras: cada um tem um caminho que lhe é próprio, na construção e na defesa da própria singularidade, contra a ordem massificadora imposta pelos avanços da tecnologia.
A reflexão nos mostra que há uma relação oculta, um liame entre as obras de gênio. Assim, Michelangelo, Beethoven e Shakespeare, entre outros, aliam-se na tarefa de nos fazer compreender a vida, o homem e seus desertos afetivos. Sim, porque, dentre outras coisas, a modernidade tornou superficial e precária nossa capacidade de relacionamento: haja vista a prestigiosa rede Facebook, na qual é possível fazer dezenas, centenas de “amigos”, colorindo nosso deserto afetivo com uma falsa e ilusória intimidade.
São claras e contundentes as lições da ficção: a personagem G. H., de Clarice Lispector, nos ensina, por exemplo, a não ter medo da carência – nosso destino maior – nem da solidão, pois solidão é não precisar e não precisar deixa qualquer um muito só, totalmente só.
Enfim, o mundo da ficção traduz nossa humanidade, em tudo aquilo que cabe nela, sobretudo aqueles aspectos mais sombrios da vida, que tentamos, a todo custo, escamotear: nossos fracassos, mentiras, traições, rebeldia, insolências. A ficção desenterra nossos demônios e nos coloca face a face com eles. Porque a matéria ficcional quer dar expressão ao real, à vida dilacerada do “eu” contemporâneo, refletindo, de forma bela e poética, nossas dores e nossos anseios mais profundos. George Eliot estava certo: a ficção é a coisa mais próxima da vida.
Shyrley Pimenta
ivsant@terra.com.br
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