Mobral Psicológico
Alguém, leitor crônico de minhas crônicas, pergunta-me o que eu faço para ter assunto tão permanente e variado. Pergunta destas eu mato no primeiro tiro: conversando, meu amigo, olhando ao redor no que existe de profundo e superficial. Aliás, de modo filosófico, na vida muita coisa que julgamos superficial tem profundidades inesperadas. Também coisas de carinho profundo se desmancham no tempo e viver, tornam-se… superficiais. Agora, meu amigo… deu de finca, ou seja aquele mergulho que na infância a gente exibia na piscina ou no córrego. Daí que vou explicar e exemplando. É dia santo, chega-me convidado para almoçar… e a cozinheira me aflige: doutor, não tem arroz! Ora, penso, isto eu vou tirar de letra. Pego o carro, procuro supermercados conhecidos… estão fechados! Passo pelo hospital para dar alta pra Juvercina, e recebo um telefonema de grande e especial amigo que leu e quer solidarizar-se com a minha crônica da semana passada. Conversar com a sua inteligência e variedades sempre me dá prazer, vou inzonando a conversa. Misturo as marchas, e nem sei porque pergunto-lhe: onde é que eu vou comprar arroz? Parece coisa de doido, mas ele emenda de sem-pulo: comprar nada, eu tenho sempre e tudo de reserva aqui em casa, me espera no hospital, vou saindo e já com o seu arroz! Procuro defender-me, o amigo é grande advogado, acostumado a todas as respostas, já está no carro, peraí, doutor… Encurtando, desço a rampa, vou esperá-lo no passeio já com o pacote de arroz… e como sempre nos acontece, um esticado de prosa. Ele me confessa que do seu passado pobre guardou um estigma: agora na fortuna tem três freezers cheios, para nunca mais passar necessidade. Eu me solidarizo, também tenho lembranças arquivadas no freezer da memória, preventivos e prevenções da distante juventude. Conto de paciente que perdeu uma grana preta, entregou muita coisa… de menos o seu carro antigo porem especial por ser seu primeiro sucesso. Este eu não vou perder, a não ser pela morte… sua conclusão. Concluo que assim nós todos temos nossos guardados subconscientes, que passei a achar muito importantes. De certa e obrigatória forma passei a dar importância especial a estes marcos da existência humana. Nas mentes sadias e amadurecidas elas servem de baliza despercebida para a nossa vida. Atrevo-me psiquiatricamente: balizas simples e sadias formam o bom caráter. Balizas complicadas, volúveis, oscilantes em caráter bom ou ruim… não formam ninguém, a não ser na sala de espera dos psicólogos e similares.
João Gilberto Rodrigues da Cunha
Médico – Uberaba – MG
-
William H Stutz disse:19/10/11 15:53
Parabéns por mais essa crônica doutor. Não há existe fonte mais rica em inspiração do que o olhar ao redor. O cotidiano é riquíssimo em assunto, matéria prima farta, basta estender as mãos usando a mecânica da imaginação.
Comentários 1