Da ferida secreta
O filósofo Sören Kierkegaard (1813-1855) afirmava que toda forma de autoconhecimento tem início a partir de um profundo entristecimento consigo mesmo. Para o filósofo, os afetos que marcam o encontro do homem consigo mesmo são a tristeza e a dor.
Kierkegaard é o pai do Existencialismo. E a filosofia da existência é uma educação pela angústia. É preciso que enfrentemos corajosamente nosso vazio para que possamos encontrar a nossa própria verdade, certamente dolorosa, mas a única via possível para uma existência autêntica. Para o filósofo, a angústia é o puro sentimento do possível. Somos feitos de angústia porque temos consciência do nada que nos constitui e da infinita e assustadora liberdade que se abre diante de nós.
As esculturas do existencialista Alberto Giacometti (1901-1966) representam esse ser da angústia e do nada que, embora pareça caminhar com passos firmes, não tem um destino certo e, segundo o dramaturgo Jean Genet (1910-1986), amigo e modelo do escultor, suas figuras “têm a fragilidade de um esqueleto que, quando tocado, logo se desmancha”. Genet escreveu “O Ateliê de Giacometti” (Editora Cosac Naify), e registra: A beleza tem apenas uma origem: a ferida, singular para cada um, que o indivíduo preserva e para onde se retira, quando quer deixar o mundo para uma solidão temporária, porém profunda.
O livro de Genet foi analisado pelo psicanalista carioca Paulo Proença. Para ele, Genet identifica na escultura de Giacometti a solidão, o recolhimento em si mesmo, tal a inércia e o vazio existencial que elas inspiram. A obra de Giacometti valoriza os objetos e os marginais, ou seja, tudo aquilo que a maioria de nós julgamos desprezível no mundo. Gicometti parece querer descobrir aquela ferida secreta do ser e das coisas, para que ela (a ferida) os ilumine (ser e coisas).
O encontro com os aspectos singulares da obra de Giacometti foi decisivo para Proença, levando-o a escrever “Em torno de Alberto Giacometti – Arte, Ética e Psicanálise”, publicado em 2010 pela Editora Companhia de Freud. Mas que o prezado leitor não se assuste: o livro foge bastante do jargão psicanalítico, apontando para a dignidade dos objetos, que Giacometti cultivava com o espanto de quem via o mundo sempre pela primeira vez e cujo conceito de beleza era menos estético e mais da ordem moral.
Valorizou também os objetos Giorgio Morandi (1890-1964), que pintou uma série repetida de naturezas-mortas: vasos, caixas, garrafas, como se sua tarefa no mundo fosse enxergar o invisível, denso e insondável, dos objetos do nosso cotidiano, atraindo para eles o nosso olhar, atualmente tão distraído pelos ruídos da ação e da técnica.
A obra de arte, qualquer que seja, e a Psicanálise esforçam-se para nos fazer enxergar o invisível presente no mundo, o mistério de nossa presença nesse mundo. Isso requer uma leitura enviesada, figurada ou alegórica, feita nas entrelinhas, com a mesma “atenção flutuante” com que o psicanalista ouve o seu paciente. Arte e Psicanálise convidam-nos à difícil tarefa de olhar, “para além do que se vê, ali, onde algo de invisível se guarda”.
Shyrley Pimenta
Psicóloga clínica – ivsant@terra.com.br
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