Epidemia
Diógenes, filósofo grego, o cínico, andava com uma lanterna resmungando: “Procuro um homem”. Diante da repetição de casos e denúncias de corrupção no serviço público, cada um dos brasileiros repete a indagação do filósofo: será que existe alguém no governo que não é corrupto? Nossos dirigentes, com raríssimas exceções, são dissimulados antes do voto, após a vitória nas urnas simulam honestidade com promessas, mas, diante das oportunidades, apelam para o que diziam os latinos: ”Si isti et ille cur non ego?” (se este e aquele podem por que eu não posso?) Ou como disse um ex-presidente: “Todo mundo faz!”. E uma vez viciada a consciência, nada mais impede de aproveitar “enquanto o Braz é o tesoureiro”, como se dizia antigamente. É um verdadeiro desfile de esqueletos saindo do armário dos partidos em geral. Só começando tudo de novo. Vamos evocar o espírito de Pedro Álvares Cabral e pedir para redescobrir o Brasil. Sei que há homens capazes de recolocar esse trem na linha, mas, infelizmente, eles hoje se sentem acovardados. Calam-se e não tomam nenhuma atitude pelo medo de perderem suas posições cômodas e as benesses dela decorrentes. O protesto popular que vem tomando corpo creio ser um bom sintoma, entretanto é preciso que ele se reflita nas urnas pela melhor escolha dos governantes. Desde muito cedo é preciso criar nos jovens uma sólida consciência moral. Para isto ao invés de blasonar grandes programas sociais, que, afinal de contas, ficam mais na publicidade que na realidade, investir pesado na educação a começar pela família e principalmente na escola, sobretudo, evitando que os professores não fiquem toda hora, manobrados pelos sindicatos, de pires na mão em busca de uns míseros trocados.
Os pais e, principalmente, os mestres é que têm o futuro dos jovens na mão. A varredura que os protestos estão pedindo não terá nenhum efeito prático se não forem preparados devidamente aqueles que deverão substituir no futuro essa geração que se mostra podre. Não basta dizer enchendo o peito que somos um país emergente, no entanto estamos afogados em problemas quando um grupo de criminosos, de dentro dos presídios, comanda um exército de fiéis comparsas no meio da sociedade, quando matar virou um ato banal.
É tão pouco o respeito de países desenvolvidos pelo nosso povo, que enviam seu pior lixo para ser entregue ao nosso povo. Quando será que teremos uma revolução moral que possa, senão banir de vez, reduzir a termos aceitáveis tanta corrupção que nos sufoca. Repito Castro Alves quando versejava no “Navio Negreiro”: “Existe um povo que a bandeira empresta pra cobrir tanta infâmia e covardia”. Nossos governantes não sabem distinguir a moral particular da moral pública. Para eles, os limites tornam-se mínimos entre uma e outra e elas são vistas como um todo; absorve-se desse modo tanto a censura como os louvores.
Não importa se o dinheiro é público ou particular, tudo é distorcido e aceito como verdadeiro e legal. Sua mente é viciada pela vaidade do cargo, pelo interesse em tirar proveito e, principalmente, pela negligência em tomar consciência do que se passa ao seu redor. Alegando boa fé, aceitam as situações mais escabrosas e com elas se conformam. Depois lamentam quando alguém arrisca a denunciar. Enfim, chega de enganar o povo.
José Lucindo Pinheiro – Professor
Uberlândia (MG)
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