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1/11/2011 11:10

Deslavada hipocrisia

“Hipocrisia: o sujeito assassina os pais e,
depois, pede clemência por ser órfão.”
(Abrahão Lincoln)

O rei Abdullah, do enigmático reino saudita, cancelou a sentença de dez chibatadas em público imposta por fundamentalistas religiosos a Shaima Ghassaniya. A recomendação para tão exemplar punição decorreu de horrendo ato: a jovem foi flagrada ao volante de um carro nas ruas de Riad, desrespeitando acintosamente a moral e os bons costumes. As agências noticiosas apressaram-se em informar, pouco depois, que a magnânima decisão do esclarecido monarca arrancara justificados louvores, dentro e fora do país. Houve até quem, comovido com o misericordioso gesto, rendesse graças “a Alá e ao nosso amado rei pela revogação da punição de Shaima”. É o que chegou a ser noticiado.

Choca – e como! – a sensibilidade das pessoas de formação democrática constatar a forma complacente, pra não dizer cúmplice, com que a mídia internacional e os dirigentes das grandes potências comentam, invariavelmente, as excentricidades, os absurdos, as violências constantes do regime saudita contra os direitos humanos, reprimindo a livre manifestação das idéias, alvejando impiedosamente as mulheres. A asfixia das liberdades de expressão, de ir e de vir, por demais notória no cotidiano do país, é solenemente ignorada nas execrações, amiúde feitas, em nome da dignidade humana, pelas mais influentes lideranças mundiais, a governantes e sistemas tirânicos que disputam, no olho eletrônico com a Arábia Saudita, o pódio no capítulo dos crimes contra a humanidade ostentando, por vezes, até grau menor de virulência. E isso acontece por conta de insustentável argumento, deslavadamente hipócrita. O de que a Arábia Saudita é um baluarte virtuoso na defesa dos valores que as parcelas amplamente majoritárias das criaturas do bem tanto prezam. Onde já se viu estultice e contrassenso tamanhos? Como conceber um país desses, comandado com mão de ferro por fanáticos religiosos, a desfrutar do reconhecimento de chancelarias importantes como linha de defesa vanguardeira dos ideais nobres alimentados pela cultura humanística que permeia de dignidade a convivência social? Qualquer avaliação que se faça dos procedimentos políticos governamentais, das práticas coercitivas envolvendo a rotina da gente do povo, em vigência no reino saudita, comparativamente com Coréia do Norte, Irã, Síria, pra ficar nalguns exemplos mais manjados, conduz observadores isentos à irretorquível conclusão de que, em matéria de despotismo feroz, esses regimes todos, todos eles, se equivalem. Noutras palavras, não passam de clones uns dos outros. Farinha do mesmo saco, com seus irrefreáveis e mesmíssimos pendores para posturas repulsivas de supressão das liberdades.

Por qual razão, então, a Arábia Saudita é contemplada, pelos meios midiáticos, com tratamento privilegiado, como se pudesse ser no contexto global uma nação modelar do ponto de vista do respeito aos direitos fundamentais? A resposta a tão intrigante indagação pode ser encontrada no “livro dos por quês absurdos”. Livro esse produzido, obviamente, em bastidores diplomáticos familiarizadissimos com estratégias maquiavélicas montadas com o implacável objetivo de conquistar e garantir a permanência no poder de dirigentes servis à voz do mando superior. Dirigentes que se comprometam a preservar ambições hegemônicas políticas e econômicas de força, peso e medida. Os “donos do mundo”, no afã de conservarem a qualquer custo as rédeas nas magnas decisões, parecem-se demais da conta com aqueles coronelões da crônica política e folclórica, proprietários de extensas léguas de terra, que se colocam, desafiadoramente, à margem ou acima do império da lei: “Amigo pra mim não tem defeito. Inimigo, se não tem, eu boto!”

A confiabilidade saudita é questionada por quem sabe realmente das coisas. O cineasta e jornalista americano Michael Moore, por exemplo, garante, convicto, exibindo dados impressionantes, que a “Al Qaeda” contou com decisiva ajuda em dinheiro e recursos humanos sauditas no atentado às torres gêmeas. Garante mais: em lugar algum do planeta o ato terrorista de 11 de setembro foi tão efusivamente “festejado” como nas mesquitas de Riad. Ora, veja, pois!

César Vanucci
Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Comentários 1

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  1. Hokstori disse:15/11/12 10:39

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