Vacas e bezerros
Ando preocupada com as vacas e seus bezerros por causa de algumas coisas que ando vendo e ouvindo. Dia desses, fui à fazenda com o Zé, meu marido (minha mãe sempre dizia que mulher tem que acompanhar o marido). Mas eu não sabia que ele tinha comprado, em leilões, vários bezerros recém-desmamados de suas mães, uns 200. Cada lote foi colocado em um curral separado em frente da casa da fazenda. Os bezerros eram da raça nelore, branquinhos, e se um disparava na frente, o bando todo ia atrás. Era até bonito de se ver. O problema é que os bezerros berravam dia e noite, bem alto, em coro, clamando pela mãe e por seu leite. Um berreiro de dar dó. À noite, a gente dormia (ou tentava) ouvindo aquele lamento grupal. Segundo o funcionário da fazenda (com total apoio do Zé), os bezerros deveriam ficar presos três dias, passando fome. Assim, quando fossem soltos no pasto, estariam tão esfomeados que só pensariam em pastar e não iriam fugir desatinados, pulando cercas e se afogando no rio à procura do leitinho da mãe. Ou seja, era uma forma de proteger os bezerros. Achei essa técnica uma crueldade, uma forma de explorar os laços entre mãe e filho e pensei em chamar a Sociedade Protetora dos Animais. Voltei da fazenda com o coração partido e o Zé feliz da vida com seus lotes de bezerros.
Agora, nesta semana, o Zé estava explicando para mim tudo sobre pastagem e como estava fazendo com o gado durante a seca, para ele, o gado, não passar fome (sei que um casal precisa dialogar, mas nem tanto). Se é que consegui entender, o gado de uma fazenda estava sendo salvo pela tiririca, que brota quando o capim braquiaria está seco e os outros tipos de capim (quais mesmo?) ainda não nasceram. O gado gosta da tiririca quando está nova e macia. Acontece que, na outra fazenda, não tinha tiririca (será por quê?) e os funcionários tinham que cortar um caminhão cheio de cana, todo dia, para alimentar o gado. Mesmo assim, morreram de fome e fraqueza vários bezerrinhos que foram retirados da mãe muito cedo e vendidos nos leilões (e o Zé, malvado, comprou os bezerros). Como foram desprovidos do leite materno precocemente, não suportaram a seca. Novamente, fiquei triste pelos bezerros e agora estou sempre do lado das vacas, sofrendo com elas e torcendo por elas.
Por tudo isso, gostei de uma questão da última prova do Enem. Nela existe o texto: “De acordo com o relatório, ‘A grande sombra da pecuária’, feito pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, o gado é responsável por cerca de 18% do aquecimento global, uma contribuição maior que o setor de transportes”. O aluno deveria assinalar a letra A, de forma a completar a seguinte frase: “A criação de gado em larga escala contribui para o aquecimento global por meio da emissão de metano durante o processo de digestão”. Trocando em miúdos, quando bois, vacas e bezerros soltam “puns” e arrotos, o gás metano que liberam na atmosfera contribui mais para o aquecimento global que os gases liberados por veículos. Isso já foi comprovado e não há como inocentar as vacas e seus bezerrinhos. Mas nessa questão da prova tem um desenho em quadrinhos de duas vaquinhas simpáticas conversando. Uma diz: “Colocaram a culpa do aquecimento global nas vacas”. A outra então pergunta: “E o que faremos?”. A primeira vaquinha pensa e responde: “Culparemos as galinhas”. Como agora defendo as vacas, estou com elas, a culpa é das galinhas.
Ana Maria Coelho Carvalho
anacoelhocarvalho@terra.com.br
-
William H Stutz disse:06/11/11 8:14
Prezada Márilia me envaidece seu comentário, obrigado pelas palavras. Sou apenas um escriba tentando registrar retratos 4X4 do cotidiano. Sou um especialista em amenidades, daquelas que compõem peça a peça o curta metragem de nossas vidas
-
William H Stutz disse:06/11/11 8:17
Vacas e bezerros, um privilégio tão agradável crônica para começar domingo.
Parabéns mais uma vez. Suavidade no trato com as palavras. Encanto. -
roosevelt s. fernandes disse:06/11/11 21:42
Já pensou quando precisarmos inserir na discussão os brasileitros da área rural e os das áreas urbanas para tratar dos “ônus a serem assumidos” como decorrência da minimização dos efeitos das Mudanças Climáticas?
Será um grande monólogo pois em quase nada estes segmentos estão preparados para “perceber” o problema; pior ainda, “particiapr das discussões”.Roosevelt S. Fernandes
Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA
roosevelt@ebrent.com.br
Comentários (3)