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9/11/2011 6:59

Da paixão

O conceito de paixão, do grego pathos, patologia, deriva das experiências subjetivas relacionadas ao sofrimento, isto é, à vivência da dor ligada ao estado passional.    Porque a paixão se move em saltos, sobressaltos, labirintos e abismos. Na paixão, quase sempre, o desejo e a virtude se colocam em campos opostos. Tomado de um anseio desmedido, o homem apaixonado torna-se infeliz, especialmente quando colhido na ciranda do desejo contrariado.  Daí ser a paixão da ordem da tragédia. Não à toa, o texto bíblico “Cântico dos Cânticos” já  adverte os incautos: Não despertem o amor de seu sono, pois ele é um inferno.

Esclarece-nos o filósofo Luiz Felipe Pondé: o amor que dura, que dá “liga” é coisa bem diversa do amor romântico, da paixão. A paixão é uma doença que transforma o apaixonado num obcecado pelos mistérios, pelo corpo, pelos hábitos, pelas formas do objeto amado. Tudo na paixão é febril, desmedido, agônico. A paixão destrói a alegria, subverte o cotidiano, carrega consigo a vivência da dor.

Para a personagem G. H., de Clarice Lispector, a paixão é o golpe da graça, mas a graça da paixão é curta, curtíssima. É ainda a personagem G. H. quem nos sugere cautela, diante das tramas insidiosas da paixão: não tenham medo da carência – ela é o nosso destino maior. Também não há que temer a solidão, pois solidão é não precisar, e não precisar deixa qualquer um muito só, totalmente só.

O conceito psicanalítico de desejo, triebe, em alemão, traduzido para o português como pulsão, tem origem no inconsciente e é modelado pelas experiências subjetivas.  E muitas vezes o desejo pode se manifestar sob a forma de paixão, ou seja, sob a chancela do sofrimento, da transgressão, da desrazão. O romancista argentino Manuel Puig (1932-1990) afirmava que o nosso inconsciente tem estrutura de folhetim, isto é, há uma dramaticidade implícita no centro da experiência de construção da subjetividade. Por isso nos sentimos especialmente tocados pelas experiências do amor romântico e trágico, tal como o vivido por Romeu e Julieta, por exemplo.

O apaixonado nunca desiste de seus projetos, ainda que tudo e todos lhe afirmem que seu caminho é da ordem do impossível. O poeta E. E. Cummings refere-se ao apaixonado como aquela pessoa que “dissolverá as profundezas do horror para defender / a arquitetura de um raio de sol com a sua vida / quem esculpirá imortais florestas de desespero / para segurar a pulsação de uma montanha na sua mão.”

A paixão aponta para as contradições da paisagem emocional humana. A paixão não conhece a resignação, nem se prostra diante do destino. E é exatamente quando faz limite com o desespero que a paixão sustenta a literatura. A paixão de Leopold Woolf por Virgínia se ancorava no fascínio por sua escrita. A paixão de Ted Hughes por Silvia Plath não foi suficiente para salvá-la do suicídio, mas teve importância fundamental na construção da obra poética de ambos. E, segundo Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, os amores fracassados da escritora empurraram-na para a solidão e para a literatura. Louvada seja a paixão! Louvada seja a literatura!

Shyrley Pimenta – Psicóloga clínica
ivsant@terra.com.br

Comentários (2)

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  1. William H Stutz disse:09/11/11 8:12

    Mais uma vez somos contemplados com belo texto de Shyrley Pimenta.
    Sobre a paixão poderíamos escrever tratados e as conclusões continuariam como próprio, mistériosas. Particularmente acredito que as cicatrizes profundas em seu corpo causadas pelo incêndio em seu quarto, seriam mais fortes causas de ter se entregue solidão e literatura, além de uma melancolia crônica, mais ainda do que os amores fracassados. Clarice além de genial era vaidosa. Parabéns pela crônica.

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  2. Soninha disse:09/11/11 9:41

    E louvado seja também o Frei Filomeno Póppiti a pessoa mais apaixonada pelas grandes causas em benefício do povo de Uberlândia. Ele não desisti nunca dos seus grandes sonhos.Um bom exemplo também a ser seguido. Parabéns pelo seu artigo. Amei! Some não!

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