Psicanálise e ato criador
As obras de arte exerceram sobre Freud um poderoso fascínio, especialmente a escultura e a literatura. Para ele, uma grande obra artística constituía-se num verdadeiro enigma. Por isso, Freud focava sua análise na intenção do artista ao pintar, esculpir ou escrever. Assim, para compreender uma obra de arte é preciso interpretá-la, descobrir-lhe o conteúdo, o significado.
Para Freud, a atividade imaginativa do artista tem origem no brincar infantil. Tal como a criança quando brinca, o artista cria um mundo novo, repleto de fantasias, que nada mais são do que a realização simbólica de desejos reprimidos. Freud interpretou obras de Leonardo da Vinci, Dostoievski, Shakespeare. Goethe, Jensen etc., buscando confirmação para suas teorias, sobretudo sobre a existência do inconsciente. Toda obra de arte é, portanto, a manifestação de uma fantasia do seu autor, nascida dos mais diferentes motivos que habitam o mais profundo da sua alma.
Tal como a literatura, a psicanálise tem tudo a ver com a palavra. O psicanalista francês Jacques Lacan já afirmava que o inconsciente é estruturado como linguagem. É na medida em que fala, o que nunca dissera antes, que o sujeito se cura, pode libertar-se de seus sintomas, que nada mais são que substitutos daquilo que foi recalcado. Para conhecer, tanto o texto literário quanto o texto do paciente, é necessária a interpretação, ou seja, há que se buscar, no sentido manifesto do texto, aquilo que está oculto, subentendido, simbolizado. Na situação de análise, trata-se de reapresentar, deixar vir à tona, o que ficou reprimido.
O filósofo Heidegger afirmava que a linguagem é a casa do ser e, dessa forma, as patologias do ser se manifestam através da linguagem. Por isso, experiência traumática e literatura se articulam estreitamente. Toda experiência traumática se caracteriza pela intensidade, ou seja, pela incidência de grande excitação sobre o psiquismo, cujo impacto não é possível ser absorvido e digerido. Um caminho possível para a dissolução ou administração da situação traumática é o ato criador. Ao invés de sucumbir, passivamente, à angústia traumática, o sujeito cria uma obra artística, capaz de servir de anteparo, de ajudá-lo a suportar a angústia.
A primeira grande experiência de inundação energética do psiquismo é o trauma do nascimento, experiência que permanece inscrita na psique do sujeito pela vida afora, acrescida de outras tantas experiências traumáticas, todas passíveis de articulação com a criação artística. Discorrendo sobre a questão, Carlos Leal cita o escritor Georges Perec cujos pais foram brutalmente assassinados pelos nazistas, deixando nele uma falta com a qual procurou lidar através da escrita, mesmo que esta não desse conta do excesso da experiência vivida. Leal cita também o poeta alemão Paul Celan, cuja desolação pela perda dos pais, também mortos num campo de extermínio, o levou a produzir um texto denso e vigoroso, repleto de silêncio e dor. E quando as palavras não foram mais capazes de conter o excesso de dor que o marcou indelevelmente, o poeta atirou-se no rio Sena, sucumbindo ao peso da dor insuportável.
O passado doloroso que conservamos em nós exige, para ser lido, compreendido e elaborado, uma nova experiência posterior, uma reapresentação, que abra caminho para a significação: um escrito, um desenho, uma pintura, uma modelagem, com características artísticas ou não. Toda produção humana é uma tentativa de arrancar o que de mais ignóbil, destrutivo e mortífero abrigamos dentro de nós.
Shyrley Pimenta - Psicóloga clínica
ivsant@terra.com.br
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Eduardo Humbertto disse:29/11/11 20:03
Mais um excelente texto de Shyrley Pimenta. Sempre fico no aguardo. Muito interessante a reflexão.
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