Ser político
Certa vez, em Belo Horizonte e mais precisamente em meados da década de 70, um amigo disse que poderíamos ser mais felizes sem a “danada” da política e o que, à época, acatei sem maiores delongas e visto que aquele assunto, mesmo no início da crise do regime ditatorial em nosso país, ainda gerava polêmicas diversas. Enquanto me divertia com o que era natural à maioria dos adolescentes, não raramente eu assistia alguns colegas de bar e de copo engajando-se em movimentos políticos de esquerda e em plena ditadura militar.
O famigerado DOPS era, com o SNI-Serviço Nacional de Informações (filho da Revolução de 64), o órgão repressor mais temido pelos descontentes com o governo “verde-oliva”. Lembro que meus irmãos, mais velhos, viam desmoronar alguns dos seus projetos educacionais e profissionais como a um castelo de cartas, pois as suas certezas em relação ao futuro e que pareciam inabaláveis começaram, então, a dar a impressão de tornarem-se vazios.
Dez anos antes, eu havia visto militares enfileirados ao longo da av. João Pinheiro e que liga o centro daquela capital ao que era a sede do governo mineiro, o Palácio da Liberdade. Criança, meu terror ao ver toda aquela movimentação, crescia ainda mais, ao saber que estudantes estavam sendo perseguidos e presos e o que, na minha inocência infantil, fazia com que eu escondesse meus livros e cadernos sob a camisa tão logo eu enxergasse algum militar.
Foi então, a partir daquela época, que iniciei um flerte com a política e a reparar o quanto aquela ciência influencia o nosso cotidiano. Entretanto, hoje e mesmo após o deslumbramento de estrelas da magnitude de um Pedro Aleixo, do diplomático e hábil Rondon Pacheco ou do ex-presidente-eleito Tancredo Neves, vejo, com desgosto, o desinteresse de muitos em relação à vida política e ao mesmo tempo em que chegam a acusá-la de ser desarrazoada, infantil, um conjunto de fábulas e mitos, de ser alienante e prejudicial à sociedade, de alimentar ilusões, de ser tolerante com muito daquilo que afeta diretamente a nossa vida e até de ser a responsável pela escalada de (quase) analfabetos até a uma poltrona do Monte Olimpo tupiniquim.
Em consequência, para muitos, quem abraça a política dá provas de pouca cultura, personalidade fraca, medo, falta de senso crítico ou mesmo do que fazer. Ora! Em tal contexto compreende-se que o número de pessoas sem qualquer interesse pela vida política pindorama nas terras de Macunaíma tende a aumentar. Na verdade, penso, algumas daquelas acusações têm seu fundamento na conduta deficiente de alguns agentes ou grupos políticos; eles conseguiram dar à ideologia partidária expressões inadequadas ou caricaturais que provocam um natural desdém entre um considerável número de eleitores.
E essa situação (imagino) contribui para empalidecer na consciência de muitos o gosto pela política e o que redunda em eclipse dos próprios cidadãos. Certo é que a prática da política não é uma atitude cega, meramente emotiva ou fonte de lucro fácil. Ser político e enquanto filiado a algum partido é, também, aderir às exigências de críticas inteligentes, pois é a inteligência e não a emoção que deve inspirar e mover a vida pública.
Gustavo Hoffay
Agente social
Uberlândia (MG)
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