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9/01/2012 7:54

A aflição nossa de cada dia

A competição e a velocidade viraram epidemias no mundo contemporâneo. Haja vista as pragas, impropérios e outros comportamentos irracionais que assumimos diante de qualquer coisa lenta: um computador, o trânsito, um caixa de banco.

O culto à velocidade, que caracteriza a vida nos grandes centros urbanos, já provoca desafios no sentido da sua contenção. Muitos países se movimentam no sentido da desaceleração, propondo e difundindo um modelo de vida menos estressante e, em conseqüência, mais saudável.

Com a proposta de nos fazer repensar nossa relação com o tempo e a vida, o jornalista Carl Honoré lançou no ano passado, pela Record, o livro Devagar, já traduzido em muitos outros países. O livro de Honoré, fruto de suas reflexões sobre a própria experiência com a velocidade, propõe-nos uma pausa para entrar em contato com o eu interior, o que exige calma, relaxamento, pé no freio.

Não se trata, diz o autor, de renegar a tecnologia contemporânea, mas de usá-la de uma outra forma, de sobre ela exercer controle, ao invés de se deixar por ela dominar. Trata-se de tornar menos histérica, barulhenta e estressante nossa relação com a máquina.
Na atualidade, nossas crianças e jovens se ressentem do excesso de compromissos, obrigados a frequentar cursos e mais cursos, para vencer a concorrência selvagem. Não por acaso, muitos jovens são levados à depressão e ao suicídio (tristes são as estatísticas no Japão), pressionados pelos horários, pela competição, pelos compromissos de toda ordem.

O ideário da desaceleração encontra ressonância não só nos países desenvolvidos, mas também nos emergentes, pois todo ser humano, onde quer que exista, requer uma pausa, uma lentidão, para refletir, contemplar, viver. Na última década se constata que os prejuízos decorrentes do processo de aceleração superam os benefícios. Nossa saúde física e mental se deteriora a olhos vistos, gerando desequilíbrio e comprometendo nossa qualidade de vida. Estamos todos a correr numa pista de alta velocidade, sem nenhum tipo de proteção. O risco é grande. E a saída é aprender criativamente uma relação nova com os meios tecnológicos, com o ambiente, com os relacionamentos humanos.

Na aflição nossa de cada dia, a pressa nos torna obtusos, indefesos e acuados e mais facilmente metemos os pés pelas mãos. Nossa época, aturdida pela pressa, corroída pela angústia do tempo que voa, precisa de um antídoto, que pode estar nas lições cheias de sabedoria dos ancestrais, os quais entendiam que a pressa é como a chuva – quanto mais rápida e torrencial, mais apta a alagar e transtornar os rios e capaz de fazer morrer os homens e os bichos.

Shyrley Pimenta

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