O sentido se arranca das pedras
Uma boa literatura há de ser enxuta. Requer, portanto, o exercício da condensação. Deve ser honesta, ainda que cortante ou até selvagem. O bom escritor é um ser vulnerável, por isso vive a experiência, antes de escrevê-la.
Diferentes autores e obras reafirmam a ideia de que livros e autores podem fazer, no cotidiano, as vezes de guias da existência. Na medida em que se popularizaram, na Europa do século 17, o romance e o ensaio passaram a funcionar como orientação espiritual e prática, uma vez que deles se podiam extrair sentimentos morais e edificantes, máximas, advertências e reflexões, como assinalou um dos escritores da época, Samuel Richardson.
Modernamente, o desejo de destilar sabedoria passa pela literatura de autoajuda. E um grande propagandista do gênero na atualidade parece ser o escritor Alain de Botton que escreveu Como Proust Pode Mudar sua Vida, livro que explora a obra de Proust à cata de “lições” para, entre outras coisas, ensinar o homem a amar a vida e a ser feliz no amor.
Sarah Bakewell, reafirmando a crença de que a literatura pode oferecer, em certos momentos, orientação ética e espiritual, escreveu uma espécie de biografia do pensador francês Michel de Montaigne (1533-1592), destacando seu estoicismo, sua temperança, a ideia de que uma pessoa deveria escrever sobre si mesma para criar um espelho no qual outras pessoas pudessem reconhecer a própria humanidade.
De qualquer forma, a matéria da boa literatura há que ser a própria vida dilacerada do eu, em quaisquer épocas e contextos. A proposta é, em última instância, expressar o real, refletir poeticamente as dores e os anseios do homem. Sim, é possível fazer poesia da abjeção da vida inóspita e cruel. É possível descrever, com todas as cores e nuances, as profundezas daquilo que Freud e a Psicanálise denominam de o “estranho” (unheimlich), o enigmático, cuja grandeza pode ser perturbadora, mas que também pode levar-nos, interiormente, ao encontro de uma verdade plena, absoluta.
O poeta austríaco Georg Trakl (1887-1914) revelou-se um mestre no gesto de fazer poesia a partir da catástrofe e do desespero: Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e escreve. Os poemas de Trakl nos fazem mergulhar fundo no reino das sombras, no reino da melancolia, da turbulência, da loucura: Quando desci o atalho rochoso, tomou-me a loucura, e gritei alto na noite; e quando me curvei com dedos prateados sobre as águas silenciosas, vi que meu rosto me havia abandonado…
Sem dúvida, existem coisas sobre a nossa condição humana às quais só podemos ter acesso por meio do estudo sistemático da literatura, conscientes de que toda e qualquer interpretação que possamos fazer da obra literária será sempre incompleta e insatisfatória, pois sempre haverá a possibilidade de novos e surpreendentes significados adicionais. Além disso, uma das regras da boa literatura é não dizer tudo de uma vez. Importa que o leitor entenda por si mesmo o que se deixou apenas sugerido, pois a literatura tem que inquietar, sem medo da transgressão. Deve desmistificar psicologicamente o mundo de forma radical, embaralhando dados, promovendo desacordos, desconstruindo a realidade opressora. Como afirma o filósofo Pondé: O sentido da vida se arranca das pedras e não dos céus ou das teorias. Os lábios dos que buscam sentido estão secos como os de quem vaga por um deserto.
Shyrley Pimenta – Psicóloga clínica
ivsant@terra.com.br
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Paroquiano disse:27/01/12 10:03
Muito bom Texto. Vou guardar aqui para enviar para o Bispo…, ele está precisando…”O Sentido se arranca das pedras e não das teorias”… Gostei!Tem noticias do frei Filomeno? Abraço.
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