Valores e crimes
De maneira discreta acompanhei um pouco do julgamento do assassino da jovem Eloá, ocorrido sob o circo armado pela mídia, enquanto agitado pela curiosidade de milhares de pessoas sedentas de justiça e levado a efeito por juristas dispostos, inclusive, a fazer de toda aquela situação uma grande oportunidade de enriquecerem os seus respectivos currículos.
Um espetáculo digno das grandes promoções cinematográficas e que, a partir do que pude sentir por meio da megacobertura televisiva, fez um grande número de pessoas, em todo o Brasil, sentir, dolorosamente, o profundo golpe infligido àquela jovem estudante em Santo André (SP). Há algum tempo (e dou-me ao direito de retornar até aos anos 60), os casos de sequestros e assassinatos eram tidos por algo absolutamente hediondo, escandaloso e também ganhavam capas e numerosas páginas de cobertura em revistas como a “Cruzeiro” e a “Manchete”, entre outras que, naquele tempo, eram muito procuradas em bancas diversas.
Foi naquela época, imagino, que alguns criminosos ganharam fama e “respeito”, a ponto de sentir a falta de um beija-mão imediatamente após serem condenados a longas penas e recebidos com pompa e circunstância por aqueles que seriam os seus colegas de cela nos próximos 20 ou 30 anos!
E levavam consigo, como a um diploma de reconhecimento pelos seus crimes, apelidos que mais pareciam títulos e pelo mérito de terem, finalmente, adentrado o mundo do crime.
“Bandido da Luz Vermelha”, “Ramiro da Cartucheira”, “Lulu Carabina” e outros eram, sob o meu ponto de vista, referências que serviam para emoldurar e alimentar o ego daqueles agentes perniciosos e indignos de viverem em meio à sociedade.
Hoje em dia, o conceito de muitos em relação a assassinos mudou bastante e devido, talvez, em grande parte, à banalização da violência e o que, não raro, termina por “justificar” (?) alguns diversos homicídios ocorridos em nosso país. Interessante observar que, para se defenderem perante a Justiça, assassinos têm quase sempre uma lógica própria, que, segundo eles mesmos, poderia livrá-los da prisão; o que, aliás, serve para fomentar ainda mais o clima de insegurança e pânico em meio a todos nós, dado o juízo que se possa fazer sobre aquelas justificativas. Nossa escala de valores está, por algum ou vários motivos, mudando e afetando consideravelmente a nossa forma de encarar e analisar os motivos que teriam levado uma determinada pessoa a cometer um crime.
E as causas dessa banalização crescente estariam, imagino, na incapacidade de muitos jovens não admitirem uma subordinação a uma escala de valores, a um impressionante subjetivismo e também a um estrambótico egoísmo.
Isso contribuiria para que uma banda da sociedade não se opusesse, como deveria, contra crimes de toda espécie e visse diminuída, por consequência, a possibilidade de ela mesma reavivar a sua consciência em relação aos valores a serem praticados, dando aos jovens um fundamento mais sólido e tendo Deus como base de tudo e de todos.
Gustavo Hoffay
Agente social
Uberlândia (MG)
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