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15/03/2012 7:41

O vice

Quando se escolhe ir com alguém, já se sabe que a posição é de sombra. Aceitar isso ajuda na construção da relação. Mire-se no exemplo das galáxias – uma estrela atrai a formação de planetas; ou seja, um à frente e muitos seguidores. E estes seguidores mesmo mais alados e brilhantes não têm a função de passar adiante – isso acarretaria o fim da galáxia.

Escolher o segundo dá o tom do sucesso. Mas nem sempre contempla a conquista com láurea. É o tal do ganha, mas não leva. Traçar uma estratégia também é chover no molhado. O bom mesmo é o olho. E deste olhar seguir a intuição, respeitando quem se quer ao seu lado em suas humanidades. Não adianta escolher sem se deixar ser escolhido.

Toda relação constrói caminhos de corrupção: a caixa de bombom no namoro; a viagem no noivado; o anel de casamento; os mimos do Dia dos Namorados. E na vida profissional: o vasculhar na intimidade de um candidato a vaga de emprego provocando assédio moral antecipado. Ou mesmo na escolha milimétrica do financiador de uma campanha que ganha com sua grana um cargo por seu sucesso em dinheiro.

A falta de respeito para com as pessoas é que tem construído neste país a política praticada com o toma lá, dá cá. É essa mesma falta de consideração pela qualidade de vida que faz com que mais e mais pessoas saibam o nome dos participantes de um programa de TV boçal e desconheçam em quem votaram na última eleição. Somando-se a isso a indignação que nasce e morre nos discursos nas redes pseudossociais que funcionam alimentadas pelas grandes corporações que controlam a propaganda na TV. Perceba que somente o que é destaque na TV é que faz sucesso na internet.

Quando se escolhe um vereador, um vice-prefeito e um prefeito, dá-se o início da roda orgânica da política. O mesmo acontece quando se escolhe com quem se vai juntar as escovas de dentes. Isso é linear e permanente. E é preciso atenção de ambas as partes em que os interesses devem ser mútuos e de grande valia para a manutenção da relação. Sinceridade e cumplicidade são as chaves.

Os vices mencionados em recente reportagem de jornal demonstram como é feito esse jogo arcaico de escolha de quem vai ser parceiro. Uma vez eleitos querem alçar voo solo. Uai, não foram escolhidos para serem parceiros? E os que não se reconhecem, nem voo solo almejam, se posicionam na defesa de suas particularidades. Que resiliência conveniente.

Um vice deve ser o articulador. O interlocutor com a Câmara de Vereadores. A mão do prefeito onde este não pode estar, sendo ele sua imagem e semelhança. As pessoas respeitam não o falso tímido nem o falastrão, mas àquele que sabe representar o líder. O vice deve ser aquele que chega para ser o segundo. E dessa posição estar à frente dos interesses de quem o escolheu. Vice não tem discurso. Vice é o primeiro em imagem, ideias, respeito e “aliterações”.

Ser vice é ser o povo. Ser vice é fazer valer a democracia. E isso não pode ser reprimido num contexto de ser empresário ou ter dinheiro. Ser vice não pode ser alguém ensimesmado, ausente do processo político partidário. Ser vice tem que ser a cereja destacada do bolo sem jamais querer ser o bolo. A vida é um prêmio. E esse prêmio obedece aos dias que vêm um após o outro.

José Amaral Neto
Diretor de Agência da Informação

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