Problemas corporativos
Aumenta ano a ano o número de cursos de graduação e de pós-graduação na área de negócios. Alguns são de boa qualidade, outros, apenas para oferecer um diploma; mas o que faz mais diferença é a dedicação do aluno e como ele está levando o conhecimento recebido para o mercado. Essa transposição do conhecimento para a prática é o grande desafio e também o que as empresas necessitam, porém, não acontece de forma eficaz. A falha pode ser do aluno, como também da empresa.
O papel dos alunos está muito ligado à capacidade de inovação, de levar com inteligência a informação apreendida para as empresas, e estas têm que ser receptivas a novos conhecimentos. Mas a cultura empresarial nacional não tem contribuído para essa integração, não há espaço e muito menos incentivo. Ainda predomina o comportamento de uma estrutura piramidal vinda da Idade Média, na qual é mais importante servir ao arcabouço de poder do que ter uma corporação autossustentável, criada para ser um sistema orgânico e permanente de produção. Até as organizações sem fins lucrativos padecem dessa enfermidade, é o fator cultural.
Este é o fator mais difícil de ser transposto. O modelo corporativo nacional ainda não se globalizou, pior, nem se nacionalizou. As empresas funcionam como um sistema fechado, mantendo baixa interatividade com seu ambiente competitivo, e quase zero com o macroambiente – o que explica em parte a falta de interesse em relação às reformas estruturais que estão congeladas no Congresso brasileiro há anos.
E quando falamos em sistema fechado organizacional, a comparação clássica é a de uma empresa com um relógio: para funcionar, basta o seu dono, e apenas ele, dar corda. Mas nem este depende mais do dono, porque muitos funcionam com pilha ou são automáticos. Entretanto, as nossas empresas ainda necessitam de corda, fato que pode apontar, parcialmente, o motivo da quantidade insignificante de empresas de capital aberto no país. Não há conhecimento ou visão para abrir.
É normal, na exposição dos cases empresariais nacionais, a preocupação de se destacar, com bastante ênfase, o dono da empresa, e não o negócio, que é o que de fato interessa. Para muitos empresários, as revistas mais interessantes ainda são as do segmento social, e não as de negócios – só não é cômico porque é trágico, quando se deseja ter no país empresas com responsabilidade social e com projeto que permita competitividade global. É triste.
Muitas entidades de classe são resultado dessa cultura tupiniquim, o que não podia ser diferente: predomina o social, em detrimento do econômico. O que nos deixa mais tranquilos nesta história é ser a mesma apenas parte de um ciclo. Para chegar a um patamar elevado, temos que passar por este momento. Enquanto ele não termina, vamos pagando um preço mais elevado do que outros países, por estarmos olhando no espelho quando a concorrência se dedica ao mercado global.
Outro fato curioso próprio deste período é que, nas feiras de negócios internacionais, quem abre os eventos são presidentes de associações ou grandes empresários; aqui não acontece nada sem a participação da classe política, que, por sinal, há muito tempo anda em baixa, afinal, eles pagam parte da conta com o dinheiro do bom e silencioso contribuinte.
Prof. de Estratégia e Gestão
latino@institutolatino.com.br
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