Ponto de Vista

Envie seu ponto de vista

Ponto de Vista Escreva você também para o Ponto de Vista. O artigo deve ter no máximo 3300 caracteres com espaço. A coluna é publicada de segunda-feira a domingo.

14/04/2012 7:58

Eu quero ser…

Nos tempos idos (e como se vão os tempos…) fui professora de crianças do curso primário, que era o congênere da 2ª a 5ª séries do atual ensino fundamental, ali, na querida cidade de Araguari. E eu sempre me orgulho desta fase da minha vida. Os resultados quase que imediatos de um trabalho feito com muito esforço, amor, com crianças sem grande ou nenhum acesso à educação e cultura, transformavam-se em grande fator de realização e conquista.

Alguns alunos nem tinham em casa uma mesa onde pudessem fazer os deveres, daí o perdão e a compreensão pelos caderninhos meio sujos e pela falta de material escolar.

A criança entrava na escola como uma tábula rasa, sem nenhum conhecimento a não ser o que a vida dura lhe ensinara. Passava um pouco estava lendo, escrevendo, parecia um sonho, uma espécie de encantamento, o milagre da alfabetização. A leitura de livros, uma novidade e um encontro. Um ensino vazio de sofisticados materiais, pleno de imaginação e criatividade.

Lembro-me bem de um caderninho intitulado “Nossa vendinha”. Encantador! Os alunos resolviam os problemas, de início mais fáceis, as dificuldades a seu tempo se acentuando. Os professores, quando em vez, montavam a vendinha na sala de aula, com mercadorias, dinheirinho desenhado no papel, as crianças fazendo as vezes de vendedor e compradores.

A lição era rapidamente aprendida: o lidar com o dinheiro, com o troco, a negociação, o lucro, as dezenas, as dúzias, tudo ali acontecendo como se fosse de verdade, uma séria e educativa brincadeira.

A redação se fazia todos os dias, mesmo que fosse apenas um bilhete. Havia um tema indefectível: “O que vou ser quando crescer?” O assunto era bastante trabalhado pelos professores, antes que os alunos iniciassem a tarefa. Às vezes era chamado um profissional de determinada área para uma pequena palestra. Alguns atendiam o convite com alegria.

Um médico, certa feita, levou um esqueleto que se exibia molengo e balançante para a criançada, a princípio medrosa e após instantes apaixonada pelo “Edgar”, dando-lhe calorosos abraços.

O interessante da história é que quase todos os meninos queriam ser “bombeiros” e a quase maioria das meninas sonhava ser “professora”. Emocionante ler as redações e o porquê da escolha daquelas profissões. Nas cabecinhas infantis os bombeiros salvavam tudo, de gente atropelada ou se afogando até gato de estimação que se prendera nos galhos da árvore.

Eram aqueles heróis magníficos que tiraram o corpo do coleguinha Wellington das águas profundas do rio. As professoras eram as deusas, as pessoas mais bonitas, inteligentes e boas (de coração…). Sua palavra era lei e autoridade não carecia ser mostrada a toda hora. Fazia parte da profissão.

Tomara que muitos dos meus alunos tenham se tornado bombeiros e professores. Não há como deixar de admirar o trabalho que fazem na construção de um mundo mais humano, mais solidário, mais educado, gentil e isento de dor. Como dizia o mestre Chico Anysio e vale para o bombeiro: E o salário, ó! Até quando? Estes profissionais extraordinários têm muito em comum. Irmanam-se na dedicação ao trabalho, no enfrentamento das dificuldades e por que não dizer: cada um, a sua maneira, está quase sempre combatendo incêndios…

Marília Alves Cunha
Educadora – Uberlândia – MG – mariliacunha16@hotmail.com

Comentários 0

Ao enviar suas informações de registro, você indica que concorda com os Termos do serviço e leu e entendeu a Política de Privacidade do site do Correio de Uberlândia. Só serão liberados comentários cujos autores estejam identificados por nome e sobrenomes e que não contenham expressões chulas e/ou palavras de baixo calão.