A falibilidade humana
Reli recentemente “O homem falível”, do filósofo francês Paul Ricouer (1913-2005), que compõe o terceiro capítulo do livro “O mal: um desafio à Filosofia e à Teologia”, publicado no Brasil em 1988. Ele inicia a discussão com uma pergunta: “o que se pretende dizer quando se chama o homem de falível?”. A resposta: “o homem, esse ser falível, incompleto e capaz de bondade também é capaz do mal”. Ricoeur avalia o mal como um fenômeno que escandaliza e que deve ser enfrentado, pois o mal corrompe e destrói o humano.
É a partir desta releitura que faço uma reflexão sobre a falibilidade humana aplicada a um dos mais recentes escândalos de corrupção na política brasileira: Demóstenes Torres. Ex-delegado de polícia, ex-secretário de Segurança de Goiás e promotor de Justiça licenciado foi conduzido à mais alta função da República: o Senado Federal.
Um dos mais implacáveis críticos do governo Lula, cultivou a imagem de paladino da moralidade ao tornar-se um dos grandes defensores da Lei da Ficha Limpa e dos poderes de investigação do CNJ. Todavia sua bandeira moralista e um discurso fervoroso anticorrupção não o salvaram da infalibilidade. Ao cair no erro moral tornou-se falível.
Os gregos e os humanistas professaram durante séculos “que todos somos falíveis e podemos errar”. Os humanistas tomaram a doutrina da falibilidade humana como base para a pregação da tolerância. Mas até quando toleraremos o mal na política?
Não posso comungar da mesma opinião de Ricouer de que o mal moral esteja inscrito na constituição humana, apesar de concordar com Voltaire (1694-1778), filósofo do iluminismo francês “de que somos pessoas falíveis: errar é humano e estamos o tempo todo cometendo erros.” Isto, entretanto, não significa que tenhamos que suportar o mal moral, que corrompe, sobretudo na política. O historiador José Murilo de Carvalho em entrevista ao jornal “O Globo”, de 6 de julho de 2009 (p. 7), disse: “Ser republicano é crer na igualdade civil de todos, sem distinção de qualquer natureza. É rejeitar hierarquias e privilégios. É não perguntar: ‘Você sabe com quem está falando?’ É responder: ‘Quem você pensa que é?’. É crer na lei [assim como na constituição e nos tratados internacionais] como garantia da liberdade. É saber que o Estado não é uma extensão da família, um clube de amigos, um grupo de companheiros. É repudiar práticas patrimonialistas, clientelistas, familistas, paternalistas, nepotistas, corporativas. É acreditar que o Estado não tem dinheiro, que ele apenas administra o dinheiro pago pelo contribuinte. É saber que quem rouba dinheiro público é ladrão do dinheiro de todos. É considerar que a administração eficiente e transparente do dinheiro público é dever do Estado e direito seu. É não praticar nem solicitar jeitinhos, empenhos, pistolões, favores, proteções”.
Finalizo esta reflexão com uma frase de Demóstenes (384 a.C – 322 a.C), não o Torres, mas o eloquente orador grego, que também sucumbiu ao mal moral ao se deixar comprar por um ministro de Alexandre, o Grande: “Toda a vantagem obtida no passado é julgada à luz do resultado final”.
Que os ideais republicanos reiterados por José Murilo de Carvalho sobrevivam ao mal moral, o que corrompe!
Adriano Zago
Advogado Vereador (PMDB)
Uberlândia (MG)
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Bruno disse:17/04/12 13:27
Gostaria que o Adriano julgasse também seus colegas de partido (PMDB), e também os seus colegas do PT a nível local, estadual e federal, pois estes ao que me parece são iguais ou piores a qualquer Demóstenes por ai.
Gostaria que algum juiz do STF tivesse a coragem de investigar de onde surgiu toda a fortuna acumulada pelo filho do Lula…
Ajude-me a lembrar de algum membro que foi expulso do PMDB em tempos recentes por motivo de corrupção ou desvio de conduta… Pois pelo que me lembro o Demóstenes Torres está suspenso do seu partido (DEM) e se condenado será expulso..o que por sinal nunca vi acontecer em seu partido ou no PT caro Adriano.
Acredito muito ADRIANO que suas escritas são de CUNHO PARTIDÁRIO e FRUTO DE POLITICAGEM.
É por essas e outras que meu voto para Vereador, Prefeito, Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador e Presidente nunca passará por quadros do PMDB e PT, partidos que não medem esforços para chegar ao poder, povo mercenário, que se vende e assim desonra seu Município, Estado e Nação. -
Rubens Forattini Jr. disse:17/04/12 15:52
Caro vereador Zago,
Permita-me uma correção a respeito da frase “ao cair no erro moral tornou-se falível”. O senador Demóstenes não se tornou falível. Ele era falível, e muito, por isso caiu no erro. Erro não foi causa, foi efeito.
Sobre poder e corrupção, é impossível não lembrar a resposta à jornalista Sonia Racy, do intelectual Fernando Henrique Cardoso – aquele que privatizou antes de Dilma – tão satanizado em nosso paiseco quanto respeitado fora daqui, sobre se o poder corrompe ou revela o caráter de uma pessoa:
“Mais revela. É claro que o poder absoluto dá mais chances aos mais fracos de ficarem maus. Veja, vamos falar português claro: uma pessoa que tem posição de mando (não precisa ser presidente) tem enormes possibilidades de enriquecer. Ele tem informações e pode usá-las. O que freia isso, o que inibe? É você mesmo. Quando você não o faz, é você mesmo que deixa de fazê-lo. Não é que o poder está impedindo”.
Estadista como poucos que o Brasil conheceu, FHC ombreou-se aos grandes políticos Tancredo, Ulisses e Teotônio (o pai). O PMDB, antes da união estável com o PT, já esteve em companhia muito melhor.
E o “erro” do senador Torres foi não ter pulado de DEM para o PMDB, como foi sugerido pela própria mulher, antes do escândalo. Lá estaria resguardado da fúria de Lula, o insaciável, e do oportunismo de criaturas iguais a ele e ao próprio Demóstenes, aboletadas no poder, à espera das boas oportunidades que o país oferece, para lá se eternizarem.
Somos senhores do nosso destino e prestaremos severas contas de nossos erros. Porém, Demóstenes, ao contrário dos seus perseguidores que dispõem do famoso efeito teflon, imunes que são à justiça e à consciência tupiniquins, deverá pagar por aqui mesmo, não só devido aos “pigmeus do Boulevard”, como diria Chico quando era “vivo”, mas principalmente perante seus eleitores que têm aquele perfil dos apenas 6% de brasileiros que sabem colocar o sininho no pescoço do “malfeitor”.
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Bruno disse:18/04/12 9:24
Disse tudo Rubens,
Excelente texto, que externa uma realidade triste e camuflada, na qual o PT/PMDB se apoia para perpetuar-se no poder!
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mauricio disse:19/04/12 23:25
parabens Sr. Rubens.O sr. disse tudo e com todas as letras.parabens.
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Comentários (4)