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26/04/2012 8:06

O inusitado acontece…

A Semana Santa é tempo de celebração. Anos após anos repetem-se os rituais religiosos que lembram a paixão de Cristo, imolado na Cruz para pagar os pecados dos homens. No Brasil inteiro multiplicam-se as rezas, as procissões, os cânticos tristes, as encenações da Paixão, crianças vestidas de anjos, adultos encapuzados, profusão de velas, flores, lágrimas emocionadas, símbolos inúmeros do sacrifício e da morte de Jesus.
Ocorre também uma expectativa alegre. Feriado prolongado a ensejar mil prazeres: regabofes banhados a vinho e sortidos com requintada bacalhoada. E aquele esticada na praia, no campo, feriado permitindo que a leveza tome conta da vida, que se esqueçam trabalhos e horários, mesmo que para isto haja para enfrentar longos congestionamentos e perigoso trânsito, um bando de crianças choronas, famintas e sedentas e uma mulher que não se cansa de citar tudo que poderia ter trazido na bagagem e ficou para trás. E haja bagagem…
Muitos se aquietam em casa, ao sabor de um livro, um filme na TV, música, silêncio da cidade adormecida, gostosura daquele não fazer nada que o corpo cansado ansiava. Pura preguiça, lassidão. Beleza!
Mas coisas inusitadas acontecem nestes santos dias e vão parar nas páginas dos jornais, por isto mesmo, por serem inusuais. É aquela velha história: se o cachorro morder o jornalista, o fato não se transforma em notícia de jornal. Agora, se o jornalista morder o cachorro, notícia na certa!
Acreditem vocês: na cidade de Inhaúma, MG, um ladrão praticou um furto que abalou toda a população: levaram, afanaram a peruca que compõe a imagem de Nosso Senhor dos Passos, aquela imagem que, conforme reza a tradição, tem um encontro emocionante com Nossa Senhora das Dores, durante uma procissão. A peruca era novinha em folha, confeccionada com cabelos naturais e paga com dinheiro arrecadado pela comunidade. A revolta foi geral. Já se ouvira falar em furtos de objetos sagrados, mas a peruca da imagem de um santo, pelo amor de Deus, foi demais… Nada, porém, apagou o brilho da procissão nem a fé dos habitantes: Nosso Senhor dos Passos seguiu seu caminho com a peruca velha, que havia sido conservada, sem ter de passar pelo constrangimento de desfilar careca.
Outro fato que chamou a atenção e chegou às raias de um extraordinário realismo foi a encenação do ator Thiago Klimeck, que se enforcou acidentalmente quando interpretava o personagem Judas Iscariotes no espetáculo “A Paixão de Cristo”, na cidade de Itararé-SP. O rapaz permaneceu por alguns minutos desacordado, antes que se apercebessem do que estava ocorrendo e desatassem o nó da forca de seu triste personagem, e foi encaminhado à Santa Casa de Itapeva. Infelizmente, faleceu no dia 22 de abril. Uma tragédia provocada talvez pelo afã de fazer da encenação uma coisa quase perfeita e condizente com a realidade.
Bem, já prestamos contas ao Leão e a outros institutos que nos crucificam mais sofregamente no início do ano, curtimos a euforia do Carnaval, rezamos ou nos divertimos na Semana Santa. O que vem mais por aí? De agora pra frente, por algum espaço de tempo, acho que é trabalho, não é gente?

Marília Alves Cunha
Uberlândia (MG)
mariliacunha16@hotmail.com

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