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30/05/2012 7:09

Não fui para guerra

O CORREIO de Uberlândia publicou no domingo, dia 20 deste mês, uma reportagem de Pablo Pacheco sobre Mário Pereira, que em 1943 lutou na Segunda Guerra, no grupo de aliados dos Estados Unidos, contra alemães, italianos e japoneses. Eu também fui, convocado para a guerra, mas não fui, como consta do meu livro “Temas de Uma Vida”, que aqui transcrevo.

Todo mundo tem na sua vida momentos de sorte, fases e episódios de benefícios. Isso também aconteceu comigo na década de 40 do século passado. Era a época da guerra contra a Alemanha e Itália do nasifascismo. Conforme conta Leôncio Basbaum no livro “História sincera da República”, a 16 de junho de 1944, desembarcava na Itália o 1º escalão das Forças Expedicionárias Brasileira, depois mais quatro, completando a Primeira Divisão, num total de cerca de 25 mil homens da tropa de combate e pessoal administrativo. No campo de batalha, tombaram 451 mortos brasileiros. Possivelmente, eu poderia estar entre eles, pois fui convocado para a guerra.

Eu estava no Rio de Janeiro, no Colégio Pedro II, onde fazia os dois anos preparatórios para o vestibular da Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil. O preparatório era um curso oficial, público e gratuito, necessário para o curso de Direito, também com as mesmas características.

Um dia, recebi um telegrama de meu pai me comunicando que eu tinha sido convocado para a guerra, e que deveria me apresentar à Unidade Militar de Juiz de Fora, Minas Gerais.

Quando eu tinha 16 anos de idade, fiz o Tiro de Guerra em Uberlândia, na época do meu curso ginasial. Era uma preparação militar para rapazes da minha idade. No Tiro de Guerra, os adolescentes, durante um ano, eram treinados como componentes do Exército.

Então, como dizia, fui convocado para a guerra no começo da década de 40 do século passado. Em vez de ir para Juiz de Fora, fui ao Ministério do Exército, no Rio de Janeiro, e pedi para me apresentar à Unidade Militar daquela cidade, onde estudava. O oficial que me recebeu disse não ser possível, e que eu deveria seguir logo para Juiz de Fora. Foi o que eu fiz.

Naquela cidade, apresentei-me a um capitão do Exército. Justifiquei a minha demora em atender à convocação, inclusive, pelo curso público que estava terminando para o exame vestibular de Direito.

Esclareci que tinha me apresentado ao Exército no Rio de Janeiro.

O capitão disse ao soldado que tinha me levado ao seu gabinete:

- Pesa este recruta.

Depois, vendo o resultado da balança, comentou que eu estava muito magro.

Realmente, eu estava magro, principalmente pela alimentação que fazia em pensões bem baratas, daquela época no Rio de Janeiro. Isso, quando fazia, pois, muitas vezes, o meu almoço era pão com banana que comia no meu quarto, onde dormia com mais três pessoas, algum homem que eu nem sabia quem era. Não alugava o quarto, mas, sim, uma vaga, da mesma forma que as outras pessoas.

Voltando à minha convocação, determinou o capitão da Unidade Militar de Juiz de Fora:

- Está dispensado. Você está muito magro.

E assim, não fui para a guerra na Europa.

Uma pergunta: não fui pelo fato de ser realmente um adolescente magro ou o capitão quis me proteger, considerando a minha condição de estudante pobre, vestibulando de Direito? Não sei…

Juarez Altafin
Desembargador Federal Aposentado/ex-Reitor da UFU

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