O marujo e a marola
Era um marujo de trato difícil. Voltado a chantagens e motins, nunca estudou uma carta de navegação ou leu um manual de operações: “é como andar na esteira, dá uma preguiça danada”. O marujo Lula bravateava para um grupo ruidoso, criticando a manutenção, a limpeza, o comandante, a rota, a comida, o barulho do motor e a capacidade dos melhores homens daquela embarcação, que passara por grande reforma. Da velha nau que fazia água, com motor condenado e uma tripulação inapta, o comandante criara um conjunto capaz de enfrentar mares bravios. E foi bem testado, pois acabara de vencer uma sequência de tempestades terríveis que haviam destroçado poderosas embarcações. A nave era estável, mas exigia aperfeiçoamentos onde fosse possível, mediante competência, dedicação e sabedoria.
Foi então que Lula deixou os porões e lançou-se ao convés para assumir, em triunfo, o posto máximo da grande e complexa embarcação. O novo condutor, a esbanjar autoconfiança sob um céu azul anil, experimentava, soberbo, o timão e sorria prazeroso. Entre aperitivos e baforadas de charuto cubano, homenagens e churrascadas com os novos oficiais e contramestres, decidia o rumo da viagem. Por via das dúvidas não alterava um grau da bússola. Orgulhava-se da velocidade do barco, do ritmo do motor, da tripulação obediente e da fartura na despensa. Em mar de almirante e céu de brigadeiro, o intrépido navegante prosseguia se encantando com o próprio reflexo nas águas tranquilas e pensando, como diria Chico, um marujo cantador, “que os mares eram seus”. Mas um dia houve um tsunami ao longe. O ex-marujo bravateiro tranquilizou a tripulação: “marolinha…”. Porém a nave havia singrado festiva por seis longos anos sem se apertar um parafuso. Desgastada, sem a inspeção rigorosa. Obsoleta, sem a substituição dos equipamentos, pois o esperto, mas despreparado comandante, seguia velhos instintos. Preferiu, desde cedo, avançar nos cofres, distribuir algumas moedas no porão para alegria geral e muitos dobrões no convés, patrocinando farras memoráveis dos seus oficiais e contramestres. A nau sentiu as vagas vindas do horizonte cinza chumbo. Alguns experientes lobos do mar lamentaram não se gastar onde precisava e se gastar onde não podia, a preço de ouro de pirata.
Seguia o comandante churrasqueiro entre lições e conselhos a experientes almirantes de outras bandeiras, enquanto preparava seu substituto, que foi buscar no mesmo porão, nas oficinas do Ódio e da Revolta. Marinheira resgatada numa ressaca, irritadiça e de horizonte curto, a nova comandanta (com ‘a’) supõe atravessar vagalhões e ventanias com a mesma farra no convés, apenas conferindo a bússola, ajustando o leme, polindo o timão e arrumando a mesa da tripulação com uma toalha bonita. Mas a despensa se esvazia, o motor “fuma”, as gaxetas vazam e a tripulação dorme. O navio começa a se parecer com o antigo barco. Pesado e sem força, consome muito óleo e avança pouco. O marujo Dirceu, amigo do ex-comandante, esgueira-se nos corredores para alcançar o convés superior. Tem projeto próprio, quer substituir o casco desgastado do Bounty por outro, igual àquele do RMS Titanic. Oremos.
Deus permite as tempestades e as calmarias. Tempos de bonança não eximem o verdadeiro líder da missão difícil de arrastar a todos consigo, em busca do milagre do esforço coletivo pelo trabalho sério e conhecimento sólido, rumo ao porto da virtude e da justiça. Salvadores milagreiros e falsos profetas se desmancharão, sempre, nas ondas do tempo.
Rubens Forattini Júnior
Uberlândia (MG)
rforattinij@gmail.com
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