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26/06/2012 7:54

O Velho Realejo

Eu estava em um bar na cidade de São Paulo, quando encontrei um senhor idoso tocando um velho realejo. Emocionei-me recordando de meus tempos de criança e lembrei-me da música com o mesmo nome de autoria e interpretação de Chico Buarque: Estou vendendo um realejo/ Quem vai levar/ Quem vai levar/ Já vendi tanta alegria/ Vendi sonhos a varejo/ Ninguém mais quer hoje em dia/ Acreditar no realejo/ Sua sorte, seu desejo/ Ninguém mais veio tirar/ Então eu vendo o realejo/ Quem vai levar.

Para os mais jovens, esclareço que este instrumento toca uma música predefinida quando se gira uma manivela, acionando simultaneamente os foles ou um cilindro dentado munido de pontas de bronze que abrem as válvulas dos tubos do órgão para a produção das diferentes notas.

O senhor possuía um triste semblante, a música estava desafinada e o papagaio que permanecia na gaiola, um tanto decadente. Um pai tentou levar a filha para conhecer o que era o realejo. Porém, ela logo se desinteressou. A internet, os jogos eletrônicos e as redes sociais constituem atrativos maiores para estes jovens. Entretanto, a magia da música me conduziu até o local onde o velho tocador estava. Percebi de soslaio que uma jovem bonita prestava atenção à minha movimentação. Lá cheguei e o velho papagaio tirou a minha sorte. No bilhete estava escrito:

“Desconfie da gente que adula porque só pensa enganar. V. Sa. é do franco que não teme as falsidades e pensa que todos são iguais a si, por seu bom coração. Vão lhe roubar, mas, lhe devolverão. O destino é favorável porque suas ideias são nobres e sua vida anuncia glória. Feliz daquele que estiver debaixo de suas ordens. V. Sa. tem ideia de fazer alguma coisa, mas custa-lhe muito trabalho, porém ao acabar será muito mais feliz do que tem sido até agora”. Nada entendi, porém muito me agradou a oportunidade de ter a minha sorte escolhida pela ave.

Voltei ao meu banco e verifiquei que a linda moça tentou ler o que estava escrito no bilhete escolhido pelo papagaio. Infelizmente, não conseguiu e foi embora envolvida por um perfume inesquecível. Aí fiquei pensando, será que o meu destino está revelado neste hieróglifo que me foi entregue ou deveria ter consultado a jovem que permaneceu ao lado. Afinal de contas, ela não se assemelhava a uma esfinge e, alterando em parte o significado do enigma, não pareceu me determinar: decifra o texto ou devoro-te. Aliás, o que ela devorou mesmo foi um sanduíche caprichado.

Devo admitir que, se tivesse entendido o registrado no bilhete, passaria a acreditar na sorte profetizada pelo realejo, pois cultivo a cultura, as tradições e a memória do nosso povo e sou partidário da divulgação de todas as modalidades de arte popular. Entretanto, sou levado a acreditar que estes textos são copiados dos bancos de dados eletrônicos e aí a magia, o encanto e o charme daqueles bilhetinhos de outrora já não mais existem. Agora só me resta a recordação. Aliás, recordar é viver de acordo com a marchinha de autoria de Aldacir Marins e Macedo (1955) e, se ambos me permitirem a modificação da letra, eu afirmaria com toda certeza que ontem sonhei com você, velho realejo.

Evandro Guimarães de Sousa
Pneumologista em São Paulo
evandrogsousa@gmail.com

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