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7/07/2012 7:30

A culpa é sua

Há pouco tempo, comprei um aparelho de som principalmente para ouvir CDs, mas o toca CDs nunca funciona. Reclamei na loja, levei para revisão e nada. Concluí que a culpa é do meu filho, que fez questão do modelo mais sofisticado. Mas ele afirma que a culpa é minha, pois avisou antes para eu não comprar aquela marca, pois ela não prestava. Então, a culpa é do vendedor insistente. Ou da loja, que vende produtos ruins. Ou da fábrica, que usa material de segunda. Ou da assistência técnica, que não sabe consertar. Mas minha, a culpa não é.

Depois do incidente, fiquei pensando nessa mania que temos de jogar a culpa de algo indesejado nas costas de outra pessoa, o chamado bode expiatório. Li um artigo interessante sobre esse assunto, “A arte de culpar os outros” (“Veja”, maio/2012). Segundo o mesmo, a prática é muito comum na sociedade, pois cada ser humano tende a se considerar melhor do que realmente é, e por isso tem dificuldades de admitir os próprios erros.

Vem desde os tempos em que Adão culpou Eva e Eva culpou a serpente, e assim continuamos até hoje. Há casos bizarros, como o de Hugo Chávez, que no ano passado culpou os Estados Unidos por terem provocado câncer nele e em quatro outros presidentes, inclusive em Dilma e Lula (o pior é que tem gente que acredita). Tem também o caso trágico de Andrés Escobar, zagueiro da seleção colombiana de futebol. O coitado fez um gol contra, na partida com os Estados Unidos, e seu time foi eliminado da Copa do Mundo de 1994. Quando voltou à Colômbia, foi assassinado a tiros, foi o bode expiatório da derrota, mesmo o time tendo 11 jogadores.

O artigo também cita exemplos de governantes que, ao longo da história, nunca admitiram sua culpa (como vemos até hoje). Mas um exemplo de retidão moral foi dado pelo general americano Dwight Eisenhower, que dias antes da invasão da Normandia, fator decisivo na II Guerra Mundial, deixou preparado um discurso assumindo toda a culpa se a operação fracassasse (felizmente, não precisou usá-lo).

Outra coisa que descobri é que a culpa de um casal se separar pode ser da sogra, transformada em bode expiatório. Segundo pesquisas realizadas, os motivos campeões da separação dos casais são: traição, ciúme, dinheiro, educação dos filhos, violência doméstica, a genérica “incompatibilidade de gênios” e a chatice da família do parceiro, ou, mais especificamente, da sogra. Como é preciso achar um vilão, encontraram a sogra (fiquei preocupada, sou sogra).

Também existem casos em que a culpa é tão óbvia que a pessoa não é bode expiatório, é culpada mesmo. Como aconteceu com o meu netinho Yuri, de 3 anos, que mora na Bahia. Dia destes, estava eu de cabeça quente com tanta balbúrdia que quatro netos pequenos estavam aprontando aqui em casa. Resolvi levá-los para o clube, para brincarem na areia e se acalmarem. Tenho uma sacola rosa-choque de prontidão, com todos os apetrechos necessários: pazinhas, peneiras, baldinho.

Mas, na hora de sair, ela desapareceu. Pergunta daqui e procura dali, o Yuri falou: “Vovó, agora eu não sei, mas a sacola estava aqui, no meu cangote”. Surpresa com aquela palavra, que eu sabia que existia, mas que nunca tinha ouvido ninguém pronunciar, perguntei: “Onde mesmo?”. E ele, mostrando as costas com as mãozinhas: “Aqui, na minha cacunda”. No final, a sacola foi encontrada na garagem e ao lado dela, a prova do crime, as sandalinhas havaianas do Yuri. A culpa pelo sumiço da sacola foi dele mesmo.

Ana Maria Coelho Carvalho
anacoelhocarvalho@terra.com.br

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