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17/08/2012 7:31

Como nascem os pais

Renato Kaufmann escreveu os livros “Diário de um grávido”, no qual aborda com humor a gravidez do ponto de vista masculino, e “Como nascem os pais”, sobre os dois primeiros anos de sua filha Lucia.

Explica que a vida de um pai é cheia de pânicos, desesperos, muito sono e lágrimas de alegria. Pensava que o desespero ia terminar quando o bebê nascesse e ele contasse os dedinhos, 20 ao todo. Mas, descobriu que o parto não é uma conclusão, é só um começo que dura a vida toda. Aprendeu coisas surpreendentes, como: os bebês precisam tomar banho porque não são autolimpantes como os gatos; o choro do bebê é um som de partir o coração; o primeiro cocô, uma tal graxa preta chamada mecônio, depois vira cocô de verdade e ser pai é ter orgulho até de cocô. Ficava fascinado com os olhos da Lucia, parecidos com bolinhas de gude, bonitos como fotos de astronomia. Impressionava-se como um bebê tão pequeno podia ser tão complexo, sabendo até espirrar. E como cabia dentro dela um choro tão forte. Aos quatro meses, virava o rostinho pra ele e abria um sorriso como um sol nascente, acompanhado de uma expressão tão gostosa que dava vontade de chorar. Um sorriso completamente desprovido de interesses lácteos, pois ele não tinha leite como a mãe, a Ana. Aprendeu também que nada, nada no mundo se comparava ao jeito que Lucia olhava pra ele: “sou arrancado do eixo do meu umbigo e subitamente me vejo capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Quando ela começou a engatinhar, tudo na casa passou a ser um perigo em potencial, incrível como os bebês são atraídos por tudo que quebra. Ela parecia um bebê de dar corda, com a corda toda, engatinhando atrás dos gatos. Um dia, ela encontrou um teclado da Hello Kitty no chão e ficou descobrindo os sons. Ele pensou: “ela era um espermatozoide entre milhões, à procura de um óvulo e agora está aí, fazendo o maior som. Uau”.

Outra coisa que aprendeu é que ser pai é cheirar a Hipoglós o tempo todo. Por isso, cegos e cachorros são os primeiros a reconhecer os pais. Quando chegou o seu primeiro dia dos pais, pensou no que iria ganhar da pequenina: ”fraldas sujas e olheiras, talvez?”. Ganhou um delicioso perfume, mas ficou com receio de sufocar seu cheiro de Hipoglós e não ser mais reconhecido pela Lucia.

Aos 11 meses, ela aprendeu a dar abraços. E como é bom abraço de filho… Depois da festinha de 1 ano, ela se transformou em um bebê mais evoluído, com vários “fonábulos” novos. As descidas dos móveis se tornaram mais desesperadoras, como um campeonato de tombo ornamental. Ele descobriu que a combinação de paranoia paterna com imaginação fértil é horrível, horrível.

Na sequência, Lucia foi para a escolinha, munida de um sorriso radioativo de apenas dois dentes (que coisa impressionante um bebê fazer dentes, soltando fios de baba). E o dia em que, ao buscar a Lucia, teve de levar um peixe ensacado pra casa? Não queria, mas a diretora insistiu. Depois, ele se arrependeu de não ter aberto o saco e engolido o peixe vivo, ali, na hora.

No final, o autor escreveu: “quando você veio, eu me preocupava pensando se eu saberia lhe ensinar, e mal desconfiava quanto teria pra aprender”. Sentiu-se também maravilhado como, de todas as coisas deste mundo, ele nasceu pra ser pai da Lucia. Concluiu que esse é um processo que vai se internalizando, derrubando tudo que é árvore no caminho. As mães não, elas já vêm prontas, mas os pais são obrigados a nascer.

Ana Maria Coelho Carvalho
anacoelhocarvalho@terra.com.br

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