Falta de caráter
O povo brasileiro tão castigado com tantas mazelas que vitimaram ao longo dos anos a imensa maioria de nossa gente vive momentos de transformação que têm levado a mudar de estilo de vida e de certos cuidados. Um povo que quase sempre foi coberto da ignorância, da pobreza extrema e de um longo período de inflação em que o dinheiro mudava de valor todos os dias e, muitas vezes, até mesmo durante o dia agora pode viver com mais tranquilidade, planejamento e sem os solavancos da economia. A metamorfose de nossa gente com os resultados da economia sendo mais bem distribuídos para o grosso da população em comparação com o que era praticado no passado parece que não atingiu nem melhorou um tipo de comportamento muito importante: o caráter.
O povo está com muito mais formação e informação do que tinha há uns 40 anos, mas o caráter não mudou. Saímos de uma ditadura de 25 anos, mas o desrespeito às pessoas e ao cidadão tanto por parte das autoridades quanto das pessoas comuns é muito alto. Será que melhoramos de vida, mas perdemos o nosso caráter, se é que tínhamos? A tolerância à corrupção praticada por indivíduo pertencente seja que partido for é lastimável. Assistimos a todo momento pessoas notoriamente corruptas sendo eleitas para diversos cargos públicos sem nenhuma dificuldade. Parece que a falta da distinção entre o que é certo e o errado, o que ético e o que não é não tem nenhuma importância para a imensa maioria de nossa população.
A falta de responsabilidade do povo para com a Nação pode fazer uma democracia com vícios terríveis em termos de moralidade na gestão pública e nas atividades privadas. O cotidiano pode ficar contaminado por essa falta de responsabilidade das pessoas para com o que é coletivo. Criam-se situações nas quais se tornam comuns comportamentos que levam as pessoas as se importarem somente com o que lhes afetam diretamente, com o que pode levar resultados para elas. Ou seja, as pessoas passam a se interessar somente por aquilo que possa resultar em algum tipo de ganho para elas próprias ou para alguém de suas famílias, o resto, bom, é o resto. É muito comum encontrar situações tanto em cidades grandes quanto em pequenas em que os prefeitos entraram na prefeitura pobres e ao saírem apresentam riqueza dezenas de vezes maiores do que todo os rendimentos declarados que obtiveram ao longo do mandato. Mas, mesmos assim, com um alto grau de vestígio de prática de corrupção conseguem se eleger para outros cargos e até mesmo para o cargo majoritário com todo aval e aprovação da população. Como pode ser entendido comportamento desse tipo em que as pessoas querem e elegem corruptos para serem os seus representantes? Não se pode dizer que isso ocorre porque falta educação, que as pessoas são manipuladas, que se trata de pessoas pobres ou outras lorotas parecidas. Muitos dos que votam nesses políticos são pessoas de posses e vários são letrados e com alto nível de formação e conhecimentos.
A falta de caráter de nossa gente, além de ser demonstrada no cotidiano do comportamento das pessoas, tem sido transposta para os momentos em que se deve escolher os representantes do povo para os cargos públicos. O não se importar com os outros no trânsito, nas filas, nas transações dos mais diferentes tipos ou em quaisquer outras situações em que se pode levar vantagem deixando o outro ou os outros em pior situação também é praticado na hora de escolher os candidatos nas eleições.
Francisco Castro
Economista
Uberlândia (MG)
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Leandro Xhadem disse:30/08/12 8:22
E viva o Lula!
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Maria Aparecida de Carvalho Dias disse:30/08/12 17:54
Parabens, Francisco! Infelizmente, seu texto, muito bem escrito, traduz a nossa realidade! Sempre me vejo como um D. Quixote mais solitario do que o da ficção.A esperteza, a grosseria e outras mazelas ocuparam o espaço da civilidade, gentileza e honestidade. Não tenho mais esperanças.
Comentários (2)