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24 de maio de 2013 8:38

O poder embriaga

Quando deputados e senadores em Brasília reconhecem que a quase totalidade da população não dá muita “moral” ao que fazem ou dizem, logo se ouriçam e colocam a boca no trombone para querer provar o contrário: esforçam-se para demonstrar que trabalham diuturnamente pela ordem e pelo progresso do povo tupiniquim.

Não sei, sinceramente, como funciona o mecanismo da combinação dinâmica específica que faz parecer complexas as atuações de cada um de muitos congressistas, sempre vistos pela TV a gesticular e vociferar freneticamente diante de microfones e câmeras, como uma maneira de serem escutados, reconhecidos e até admirados por alguns eleitores que ainda não tiveram o seu senso crítico devidamente formado e apurado.
Alguns daqueles senhores e senhoras imaginam perpetuar-se no poder não por um profícuo e honroso trabalho que deles se espera, mas apenas por meio das polêmicas que criam e que fazem ecoar por todos os quadrantes da Terra de Santa Cruz.

Sob o efeito de irradiações de simpatia a partir de pessoas hábil e facilmente manipuladas, assistimos à proliferação de exímios oradores eleitos ao cargo de deputado, mas que sabemos nada mais são que frutos de uma (muito boa) reprodução tecnicamente assistida e desencadeada por organismos que visam, sim, edificar um reino paralelo à República enquanto dividindo o mesmo espaço territorial.

As suas armas, a eloquência com persistência! Imagino serem organizações que se alimentam das polêmicas que criam e que fazem ecoar com ardor o que pensam, com a arte nazista de um Joseph Goebbles, enquanto na tresloucada tentativa de perpetuarem-se no poder e manterem-se sempre em evidência.

O surto e a ascensão desses grupos na vida pública e política brasileira, não raras vezes, fazem emergir um de seus representantes para chamar a atenção para si e dar a sua valorosa fatia de contribuição a um esquema previamente elaborado.

Acredito que algumas das suas manobras até produzam o efeito desejado pelos seus protagonistas, mas outras deixam transparecer o lado mesquinho de uma dissimulação muito bem ensaiada.

Às vezes, um eleitor vota em um candidato pela sua simpatia, mas nunca imagina a consequência deletéria daquele seu ato.

Sim, porque debaixo das aparências e da boa oratória de um candidato, pode esconder-se uma personalidade facilmente controlada por grupos que vivem de forma parasitária em relação aos poderes constituídos.
Porque, ao contrário de alimentarem constantemente o desejo de ter sobre si o foco das câmeras e a luz dos holofotes, aqueles políticos não se juntam a outros por uma nobre e acalentada causa em prol de toda a população?

Também na condição de eleitores, devemos ter em mente que nem sempre o parlamentar que fala bem e bonito irá melhor nos representar nas assembleias do povo, mas sim aqueles que, secundados pelo sincero desejo de servir e por uma inteligência esclarecida, têm o verdadeiro discernimento das obrigações que o mandato lhes confere.

Gustavo Hoffay
Agente Social
Uberlândia (MG)

23 de maio de 2013 16:18

Isto também é terrorismo

Cesar Vanucci *

“O terror pode assumir, nestes
tempos amalucados, múltiplas formas.”
(Antonio Luiz da Costa, professor)

O edifício de nove andares que desabou em Daca, capital de Bangladesh, provocando mais de mil mortes e mais de dois mil feridos, abrigava um complexo industrial ligado ao setor de confecções. Marcas famosas mantinham unidades de produção no local, empregando grande contingente de operários. Mais de três mil.

Bangladesh é, depois da China, o polo de fabricação de peças de vestuário mais ativo do planeta. Essa atividade representa sua principal fonte econômica. O prédio que veio ao chão foi erguido em condições irregulares. Estava plantado numa zona vedada a construções desse porte. Mesmo assim, desrespeitando as posturas, os proprietários da edificação arrancaram, por meio de jogo de influência e propinas, alvarás de funcionamento. Mais: passando por cima de recomendações técnicas expressas, foram acrescentando mais andares à estrutura, ao longo dos anos. Ao aparecerem fendas nas paredes, diante da recusa dos operários em continuarem comparecendo ao trabalho em condições tão arriscadas, a Prefeitura de Daca ordenou a interdição do edifício. A proibição, por força de forte pressão, foi revogada dias depois. Os trabalhadores receberam intimação de retornar ao trabalho sob ameaça de demissão e suspensão de salários. A contragosto, acataram as ordens hierárquicas. Deu no que deu. Vinte e quatro horas depois o edifício caiu estrepitosamente. Milhares de costureiros, costureiras e centenas de crianças, recolhidas a creches, encontravam-se em seu interior na hora fatídica.

Os salários pagos nas fábricas eram em média de 99 reais mensais, por 72 horas semanais.

Pouco antes dessa pavorosa ocorrência, outra construção insegura, também de nove andares, abrigando empresa de confecção, pegou fogo em Daca. Não haviam saídas de emergência. A estatística tétrica, desta feita, apontou 117 mortos e 200 feridos. As tragédias levantaram nas ruas acesos protestos populares, reprimidos com violência.

A notória insensibilidade do setor industrial de confecções que atua em Bangladesh, representativo de grifes que ornamentam lojas de luxo nas praças comerciais mais sofisticadas do planeta, vem sendo, com toda razão, equiparada à violência dos fanáticos terroristas que agem em grupo ou por conta própria. Afinal – argumenta-se –, a forma de agir de uns e outros, igualada no desprezo a valores humanos sagrados, é terrorismo.

E se a gente procurar com afinco e olhar crítico atilado vai acabar descobrindo, certeiramente, em muitos outros cantos deste mundo do bom Deus onde o diabo costuma fincar também seus encraves outras desalmadas situações terroristas em potencial, parecidas com as de Bangladesh, prontas para explodir.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

8:32

Farinha pouca, meu pirão primeiro

O que se viu no último fim de semana no Brasil é muito mais do que pareceu. Uma correria desenfreada do povão de meu Deus às agências da Caixa Econômica Federal para sacar de qualquer jeito os seus quinhões que, de acordo com a boataria, seriam as últimas esmolas dadas pelo Governo da Dona Dilma. Quem espalhou a notícia eu não sei. Vai virar caso de polícia e investigação pesada, garantiu o ministro da Justiça. Vão descobrir nada e ainda gastar outra dinheirama.

O que realmente me chamou a atenção – e espero sinceramente que outros analistas tenham percebido isso – é que estamos num caminho sem volta. Ninguém mais terá peito, seja neste governo ou noutro de qualquer sigla, para acabar com o Bolsa Família. O povão de meu Deus, sobretudo meus conterrâneos nordestinos, vai sair em disparada, como boiada em desespero sem Norte, acabando com tudo o que estiver pela frente.

Amigos, criamos um Monstro. Não tem mais jeito. O povão de meu Deus não vai querer largar o osso. Quem institucionalizou a esmola que se vire, pois a mesada tá na caderneta de uma cadeia inteira. Dona Maria saca o benefício na casa lotérica, passa na padaria de seu Arnaldo para acertar a “pendura” do mês. Seu Arnaldo passa a mão no caixa para comprar a farinha de trigo e o fermento na revenda do bairro e por aí segue o cortejo.

Na cabeça de todas essas pessoas, no raciocínio desse povão de meu Deus do último fim de semana, o troço iria mesmo para as cucuias e o negócio era pegar o que tinha no fundo do tacho e rapar. Como se diz na minha terra, “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

A tal boataria dava conta de que a visita do papa Francisco ao Brasil e a Copa das Confederações, também aqui em nossas glebas, teriam esvaziado os cofres do Planalto Central. Uma vizinha conta pra outra, que passa para a outra e o estrago estava feito. “Geeeeente, corre que vai acabar.”

Na cabeça do sertanejo de pé rachado dos confins do Exu ou ao redor dos açudes do Cabrobó, “a Dona Dilma é a mulé do Seu Lula. É! Seu Lula não podia mais ficar na cadeira, por causa das lei, e deixou a mulé dele lá, tumando conta das coisa, mas com o olho dele em cima”.

Imagina o que se passou pela cabeça do povão de meu Deus, pensando que não teria mais em seu orçamento contado o dinheirinho do Bolsa Família para pagar o empréstimo tomado em 60 prestações no banco. Para quitar o carnê da televisão comprada nas Casas Bahia em 36 vezes.

Definitivamente, esse quinhão é do povão. Não tem quem tire. Sabe-se lá o que aconteceria de mais descabido com uma medida dessas. Transformamos o povão de meu Deus em refém da mão invisível do Estado, que deu à hora que quis e agora não tem mais força para tirar à hora que quiser.

Um menino vendia chicletes no sinal de trânsito numa esquina da Barra em Salvador. Todos os dias, eu passava por lá e lhe dava 50 centavos pelo chiclete. Mas, na hora de receber a mercadoria das mãos dele, eu dizia: “Precisa não, filho. Pode vender para outro”. E alguns meses depois, o menino me olhou com os 50 centavos que pinguei na mão dele e me disse: “Tio, o chiclete agora é 1 real”. Virei o Bolsa Família daquele pequeno órfão do povão de meu Deus.

Que Deus nos proteja!

Por Rogério Silva