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24 de abril de 2014 7:38

Voto consciente

A realização das Eleições 2014, para presidente, senador, governador e deputados se aproximam e, com ela, aumenta a esperança de mudanças no cenário político do Brasil que a maioria almeja. Muitos eleitores, todavia, não esperam ser imaginável modificar a biografia política construída com muitos erros, principalmente na última década no país e persistem na ideia de que a corrupção e outros desmandos são inseparáveis da política brasileira.

Essa questão precisa ser resolvida pelo brasileiro e, principalmente pelo eleitor, porque, as mudanças tão necessárias na política brasileira, na realidade, dependem mais do eleitor, do que do próprio eleito. Aceitar a ideia de que os políticos não são todos iguais, pode ser o primeiro passo para fazer uma boa escolha de seu candidato. Não restam dúvidas, existem políticos corruptos e incompetentes, mas generalizar e colocar todos no mesmo saco não é uma escolha certa. Porque muitos são dedicados e procuram fazer um bom trabalho no cargo que ocupam. Então, como identificar um bom político?

Em meio à crise e dificuldade de identificação de um bom candidato, lembre-se de que, apesar de distantes dos bastidores da política tupiniquim, os brasileiros podem estar muito próximos e conhecer as grandes ações políticas de seus: estados, municípios e do país, basta, para tanto, acompanhar com certa frequência os noticiários, pesquisar na net, com atenção e critério, para saber o que nosso representante anda fazendo. Pode-se ligar ou enviar e-mails perguntando ou sugerindo ideias para o seu representante. Caso verifique-se que aquele político ou governante fez um bom trabalho e não se envolveu em coisas erradas, vale a pena sua escolha. A cobrança também é um direito que o eleitor tem dentro de um sistema democrático e deve prioritariamente exercê-lo.

Essas indagações precisam fazer parte da vida do eleitor, afinal, serão mais quatro anos para votar novamente e poder acertar sua escolha. Nesse contexto, é sabido que as ações políticas são, ou pelo menos, deveria ser de conhecimento de toda a comunidade. Fato este, que torna a atuação do poder público frente às políticas manifestas por grande desafio no sentido de minimizar as problemáticas da sociedade e procurar soluções em relação à saúde pública, a segurança, infraestrutura, educação etc., de forma contundente e eficaz. Diante de tal desafio, o poder público não pode furtar-se de buscar embasamento em suas ações de influenciar e buscar tornar mínimas as necessidades do povo.

Não é necessário que o eleitor estude e seja profundo sabedor da política de seu país, mas precisa conhecer o funcionamento do processo eleitoral brasileiro, entender o sistema por meio do qual os candidatos são eleitos, perceber o que é verdadeiro e aquilo que ofende a moralidade da disputa eleitoral contribui para a conscientização do eleitor na escolha de seus representantes.

Nota-se votar conscientemente dá um pouco de trabalho, contudo os ganhos são enormes e pode vir coroados de um futuro promissor para sociedade com melhor educação, segurança e saúde de qualidade. Votar é uma conquista do povo e deve ser usado com critério e responsabilidade. Votar sem conhecer bem seu candidato, o que ele faz, fez, ou pode fazer, pode ter consequências negativas e comprometer seu futuro e de seu filho. Vote consciente e contribua para formação de políticos do Brasil.

Diógenes Pereira da Silva

Segundo Tenente da PMMG – QOR
diogenespsilva2006@hotmail.com

23 de abril de 2014 7:59

Obras públicas, ganhos privados

Dia desses, dei de cara com um monte de “outdoors” espalhados pela cidade com agradecimento a um político. Enfim, chegava até nós o famigerado sistema ILS, que auxilia no deslocamento de aeronaves em nosso aeroporto. Mais uma vez, algo que inexplicavelmente não saía do papel encontra um salvador da pátria. Nem vou perguntar por que demorou tanto a instalação dessa porcaria, pois já imagino a resposta.

Claro que não sou contra agradecimentos e reconheço no gesto uma virtude para poucos. É bom sentir-se e demonstrar-se grato, mas seria bom que o gesto representasse sempre a verdade, algo sincero. Melhor mesmo um agradecimento pessoal, direto, dito e ouvido sob o encontro dos olhos, longe do universo da publicidade e mais longe ainda do facebook.

Sei que isso não é coisa para se esperar nesse mundo sombrio e turvo da política, a política pequena a que estamos acostumados. Mundo onde cada gesto carrega um caminhão de gastos. E muito interesse. Só o governo federal gastou, em 2013, a bagatela de R$ 2,3 bilhões. Ainda muita grana, mesmo para quem se acostumou a torrar mais de R$ 1 bilhão em estádios paquidérmicos e fantasmas.

Não quero dizer que todo agradecimento a políticos seja desnecessário, injustificável ou suspeito, apesar de ter a plena convicção de que fazem (quando fazem) o que devem fazer para o que foram escolhidos e são remunerados. Gostaria de sugerir às pessoas e entidades tão dispostas a tornar pública sua gratidão a também sinalizarem com placas, “outdoors” ou faixas todas as obras entregues por seus benfeitores à população, com o nome das empreiteiras, valor inicial e final, tempo estimado e tempo gasto, entre outras informações educativas, como manda a lei. Assim, poderíamos agradecer aos responsáveis pelas avenidas inauguradas sem drenagem da água das chuvas, os conjuntos habitacionais sem infraestrutura, as casas que pegam fogo ou são inundadas pelo esgoto, os eficientíssimos sistemas de comunicação por celular nas penitenciárias.

Vejam as rotatórias da avenida Nicomedes Alves dos Santos, verdadeiras maravilhas da engenharia e dos esportes radicais, a monumental passarela elevada com semáforo, rodovias sem acostamento, casas que pegam fogo ou não suportam uma garoa; é uma sacanagem não sabermos os nomes dos iluminados criadores.

Sim, queremos ter a oportunidade de agradecer àqueles que nos brindam com suas obras inesquecíveis. Por exemplo, a foto dos responsáveis pela compra da maldita refinaria nos Estados Unidos deveria ser impressa em bronze! Alguém se lembra do complexo olímpico do engenhão? Não? Então, que tal fazer uma visitinha ao nosso parque aquático, que já virou água antes mesmo da inauguração?

Sim, no país das leis de número infinito e aplicação limitada, também há lei para isso. A pobre Carta Magna, tão surrada e desprezada quando trata das obrigações, define no §1º do inciso XXI de seu art. 37 que “A publicidade de atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos.”

Mas, que nada, estamos interessados é na Copa, nas mensagens do whatsapp, no último capítulo da novela, no paredão do BBB. Nos vemos na próxima inauguração de obra pública inacabada. “Nóis merece!”

Thogo Lemos
Uberlândia (MG)

22 de abril de 2014 7:10

Lua de sangue e a Páscoa

“Este eclipse acontece quando a Lua é encoberta pela sombra da Terra. Conforme o meteorologista Leandro Puchalski, a coloração avermelhada ocorre por conta da refração e dispersão da luz do Sol na atmosfera terrestre, que desvia apenas alguns comprimentos de onda. É o mesmo fenômeno que acontece durante o nascer e o pôr do sol” noticiaram as mídias.

No começo do século 20, um triste canto de louvor, entoado por negros americanos durante a Páscoa, ainda podia ser ouvido, enquanto sua igreja ardia nas chamas da Ku klus Kan : “De joelhos partamos nosso pão/De joelhos partamos nosso pão/Se de joelhos estou/Contemplando o nascer do sol/Senhor tem pena de mim/De joelhos partamos nosso pão…” Era como se nada estivesse acontecendo, embora muito sangue e dor crispasse o ar. De onde viria aquela força?

Século zero: Jesus é morto na Cruz e este evento divide a história em AC e DC. Os profetas que o precederam e os que o sucederam, foram mortos das mais cruéis formas possíveis: crucificados, apedrejados, serrados ao meio, queimados em fogueiras, decapitados. Muito sangue jorrou ao longo de milênios na história do cristianismo. E a força dos que morriam em paz vinha de Jeová Jihé.

Século 21 no Brasil: cerca de 40 mil pessoas são assassinadas todo ano por motivos fúteis, além do latrocínio, e menos de 10% dos autores destes crimes são punidos na maior nação “cristã” da América latina. Se de cada uma dessas mortes, sair alguns litros de sangue, seriam centenas de caixas d’água de mil litros cheias do conhecido líquido vermelho, que poderiam, num suposto protesto, ser despejadas na areia de Copacabana no Rio, poluindo o mar e impedindo o banho. Talvez assim o mundo enxergasse tantas vidas perdidas por nada. Não pregavam o evangelho, não eram revolucionários em valores, simplesmente foram eliminadas como cidadãs durante seu pacato cotidiano.

Já somos o país mais violento do mundo e os que morrem suplicam por suas vidas, não como os negros supliciados na América dos séculos 19 e 20, por uma entidade que tinha cara e identidade, por isso foram resilientes até a chegada de Martin Luther King, mas, por uma cultura de violência, horror e impunidade que não tem cara, nem dono – não é de ninguém, nem do Estado, nem da sociedade, muito menos de Deus.
A estranha coincidência, desta Lua de sangue em plena Páscoa me intrigou muito. Ela é rara e para mim trouxe uma mensagem da não superficialidade incomum nestes tempos; da superação das velhas lutas e dores. É como se Jesus mandasse seus anjos turgir de vermelho o branco brilhante da Lua num celeste protesto, para nos alertar sobre a Nação que estamos construindo, com tanta lama de sangue sob nossos pés, igual a que Noé – um bom filme – presenciou e levantou o calçado para se certificar, e, a partir daí, construiu o novo, na arca, sobrevivendo ao dilúvio.

Finalizo sonhando assim e desejando a todos os leitores e leitoras uma boa Páscoa do nosso Senhor Jesus Cristo. Graça e paz!

José Carlos Nunes Barreto
Professor doutor
Presidente da Academia de Letras de Uberlândia
debatef@debatef.com