O PALHAÇO
Selton Mello é sem dúvida um dos maiores atores brasileiros. Tanto que a maioria das melhores produções nacionais tem ele no elenco. Lembro de algumas ótimas: “O Que É Isso, Companheiro”, “O Auto da Compadecida”, “O Cheiro do Ralo”, “Meu Nome não É Johnny”, entre outros. Como ator ele já é ótimo e há alguns anos tem se destacado também em outras funções no cinema. “O Palhaço” é o segundo filme dirigido por Selton Mello. Mas aqui ele ainda é o ator principal, produtor e roteirista ao lado de Vânia Catani. E mesmo sem muita experiência nestas novas áreas cinematográficas, Mello fez uma obra de arte do cinema brasileiro.
O roteiro de “O Palhaço” é simples, mas eficaz. Gira em torno da crise de identidade do palhaço Pangaré que ao lado do pai, o também palhaço Puro Sangue (Paulo José), é o dono do Circo Esperança e juntos lideram uma trupe de artistas pelas estradas do país. Entre os espetáculos, surgem muitas cobranças em cima de Pangaré. Ele está exausto e obcecado pela seguinte ideia: “Eu faço todo mundo rir, mas quem é que vai me fazer rir?”
É isso que move o filme: o drama de um artista que no palco é alegre e divertido e nos bastidores sofre com uma depressão que o deixa angustiado, triste e sem vontade de trabalhar. E diante desse problema, este personagem busca algo que nem ele mesmo sabe o que é, mas que no filme é representado pelo prazer de ser refrescado por um ventilador que vira uma metáfora dos sonhos que ele quer realizar sem saber quais são e como fazer.
Mas o filme traz outro ponto positivo que é o destaque da arte circense tão valorizada no passado, mas cada vez mais esquecida em meio a tanta modernidade. O pequeno circo de lonas velhas estendidas em meio a terrenos de pequenas cidades, com aqueles “puleiros” feitos de tábua para sentarmos e assistirmos aos simples espetáculos, comendo pipocas naqueles saquinhos pequenos, refrescos, maçãs do amor ou aqueles pirulitos vermelhos que pareciam mini guarda chuvas. E nesse cenário, os palhaços eram alegria da garotada e representavam bem esse tipo de cultura.
Classificado como comédia, o filme está mais para um drama. Mas é claro que nos faz rir em vários momentos. E o curioso é que as situações engraçadas acontecem fora do picadeiro, envolvendo mais situações cômicas com o elenco de apoio que também realiza um ótimo trabalho. E ainda tem as participações mais que especiais de grandes artistas, que mesmo fazendo pequenas pontas, são extremamente bem aproveitados. Como é o caso de Moacir Franco interpretando um delgado engraçado, Tonico Pereira fazendo um mecânico maluco, Jorge Loredo (Zé Bunitim) contando piadas engraçadíssimas, Ferrugem, que estava sumido e até Danton Mello, irmão de Selton Mello.
O filme é bem dirigido e a fotografia é boa. Os planos são bem feitos e nos mostram ângulos interessantes. O figurino é outro ponto forte da projeção. As roupas coloridas mostram a magia do circo dando a idéia de alegria, diversão, fantasia.
Muitas pessoas que esperavam um filme só de comédia podem sair da sala um pouco decepcionadas, já que o filme é um pouco cansativo em algumas partes. Mas ver o drama de um comediante para mim foi até melhor que ver um filme daqueles em que para fazer rir são usadas situações absurdas e exageradas. Mesmo triste, o palhaço contagia!
Nota 9
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Carlos Eduardo disse:14/11/11 9:26
Ao acabar de assistir, achei que o mesmo tinha sido um bom filme, nada além disso. No entanto, raciocinando melhor no outro dia, pude perceber o quanto este filme é profundo e reflexivo.
Ele aborda questões existências, através da busca da própria identidade pelo palhaço Pangaré.
Também são apresentadas as relações humanas de uma maneira muita singela, onde praticamente não existe diálogo aberto entre os integrantes do circo, mas cada um sabe e entende o que o outro está passando e respeito o momento do outro. Enfim, poderíamos citar várias passagens do filme que nos passam mensagens, muitas vezes sutís. Um filme brilhante que merece todos os aplausos de pé.
BRAVO, SELTON E PAULO JOSÉ. BRAVO, TODOS INTEGRANTES DO FILME! Creio que está surgindo um cineasta de primeira!
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