Da pra ser cênico sem texto
Quando comecei a aprender técnicas de clown percebi a expansão cênica que se pode propor quando nos desprendemos da razão textual. Nada contra as construções shakespearianas, aliás, muito pelo contrário, encontro em textos clássicos uma beleza expressa, como a estabelecida no jogo simples de palavras proposto em Hamlet. “Sabemos quem somos, não o que podemos ser”, dizia Ofélia. Quer expressão mais simples e de profunda analise que essa? Não, há. Uma mudança de ordem da frase pode alterar por completo sua compreensão e começar a transmitir outra informação.
A cena, mesmo sem a complexidade de um texto apurado, se transcende à capacidade do ator de transmitir uma emoção. A profundidade de um olhar, a significação de um levantar das sobrancelhas, ou um sorriso discretamente gigantesco seguindo de uma visão que acompanha o movimento do nariz e percebe cada um dos elementos que se misturam à frente do ator. A difusa ordem que parece conter essa percepção desconexa do mundo sem palavras eleva a comunicação.
Por uma necessidade natural nos comunicamos e a capacidade de fazê-lo da forma mais completa possível nos revela a disparidade e incapacidade de usar todas as nossas funções para este fim. Ah, como os olhos falam mais que as palavras. Como os gestos expressam mais que atitude de se fazer algo. Como o sorriso expressa mais que a própria significação da felicidade. Como podemos nos render ao mero jogo de significantes do nosso vocabulário e as complexas conexões que estabelecem as palavras quando podemos falar muito mais com tão pequenos e essenciais gestos que passam despercebidos a coletividade e velocidade cotidiana.
Essa possibilidade de se comunicar usando bem mais que as palavras nos permite conhecer nossas capacidades para executar essa tarefa de se comunicar e sem duvida ser mais cênico sem texto.
Ah, quase me esqueço: onde o clown entra nisso tudo? Assistam e saberão o que realmente e se comunicar.
Slava\’s Snowshow – extended trailer – John Surman – birmhipp
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