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Obsessão por magreza gera doenças
Busca desesperada pela perda de peso pode levar à morte por desnutrição
Atualizada: 29/10/2009 - 00h22min

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A obsessão por um corpo de "Barbie", que é o sonho da maioria das jovens e adolescentes, se transforma muitas vezes em doença e leva pessoas ao extremo de ficar sem se alimentar ou comer compulsivamente e, em seguida, provocar vômitos ou tomar laxantes para se livrar da comida. Estes métodos são sintomas de anorexia e bulimia nervosas, respectivamente, transtornos alimentares que atingem milhões de brasileiros.

Só os anoréxicos somam 1,7 milhão, o equivalente a quase três vezes a população de Uberlândia. Para os casos de bulimia não há estatísticas, já que muitos deles, segundo a psiquiatra Mariza Matheus Cuvero, não são diagnosticados. A doença pode ficar camuflada durante muito tempo.

Cerca de 95% dos pacientes com transtornos alimentares são mulheres e têm entre 13 e 20 anos e 15% morrem por desnutrição. Mais do que os sintomas, a omissão do doente e a falta de suporte familiar são a principal causa de morte.

O que se vê diariamente na tela da televisão, na pele da personagem Giselle (Pérola Faria), da novela "Páginas da Vida", da Rede Globo, é comum para um grande grupo de pessoas e o pior: elas fazem questão de disseminar suas idéias obsessivas por magreza. Na internet multiplicam-se a cada dia os sites e comunidades que incentivam dietas e hábitos que comprometem a saúde e que, nas situações extremas, matam.

"Ser gorda é... Ser mal amada pelo resto de sua vida; ficar deprimida toda vez que se olha no espelho; ter inveja de todas as suas amigas que vestem 36", as afirmações estão no blog de uma garota que diz ter 16 anos, medir 1,70 m e pesar 62 quilos.

Em outro blog, uma jovem de 19 anos pede ajuda para emagrecer. Ela informa que tem 1,62 m de altura e pesa 57 quilos. "Já tentei vomitar depois de comer horrores e não consegui. Minha garganta dói muito. Gostaria de saber algum laxante para colocar a comida para fora", escreve.

Pelo Índice de Massa Corpórea (IMC*) considerado ideal pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que varia entre 18,5 e 25, esta jovem está com o peso normal, mas, como todas as pessoas que sofrem de transtorno alimentar, ela se sente gorda. A busca pela perda de peso a qualquer preço leva a pessoa a uma aparência cadavérica, com IMC extremamente baixo e comprometimentos clínicos.

Risco

Experiente no tratamento de pacientes com transtornos alimentares, Mariza Cuvero já recebeu em seu consultório uma jovem em estágio avançado de anorexia, pesando 36 quilos e com IMC 14. "Abaixo dos 17,5 já é um sinal de anorexia", afirmou. A moça precisou ficar hospitalizada por vários dias. Só depois, o tratamento multidisciplinar para combater o transtorno foi iniciado.

De acordo com a profissional, anoréxicos e bulímicos precisam ser tratados por uma equipe que envolve nutricionista, endocrinologista, psicólogo e psiquiatra, além de médicos de outras áreas que tratam as comorbidades (doenças associadas). Segundo ela, muitas famílias demoram a aceitar que o paciente receba atendimento psiquiátrico, por relacionar a especialidade com a loucura. Já a maioria dos pacientes tem resistência em aceitar que está doente.

Estes fatores dificultam o diagnóstico e adiam o início do tratamento, cujo tempo de duração varia de uma pessoa para outra, podendo levar anos. O acompanhamento deve ser prolongado, devido aos riscos de recaídas.

*A fórmula para se calcular o IMC é peso/(altura)². O cálculo está disponível em diversos sites, entre eles o www.boasaude.uol.com.br; basta informar o peso e a altura.

Adolescentes chamam doenças de Ana e Mia

A estética, fator exaltado pela mídia — principalmente pela televisão - como meio de se alcançar o sucesso, ganha cada vez mais atenção na vida dos jovens. Sem medir conseqüências, há quem adote dietas supostamente milagrosas, como uma que promete a perda de 14 quilos em 14 dias, que está disponível em uma página eletrônica.

Diante de comportamentos obsessivos por perda de peso, mesmo que não haja necessidade, a psiquiatra Mariza Matheus Cuvero faz um alerta: quando o peso passa a ser o objetivo principal da vida da pessoa isto já é doença e merece atenção por parte de familiares e de companheiros de relacionamento. "Muitas vezes, os pais acham que é só vaidade ou ?frescura?", salientou.

Ela explica que pacientes com transtornos alimentares sofrem de dismorfismo corporal, que é a distorção da própria imagem. Com isso, por mais magra que esteja, a pessoa se vê gorda no espelho. A psiquiatra, que é magra, mas dentro da normalidade para o seu tipo físico, conta que muitas de suas pacientes dizem que gostariam de ser magra, como ela. No entanto, elas estão com peso muito abaixo, mas não percebem.

Mariza Cuvero ressaltou ainda que a anorexia está associada ao uso de drogas à base de anfetamina, que provocam a perda de apetite. Ela lamenta a facilidade com que estes medicamentos podem ser comprados pela internet. Também na rede mundial de computadores os adeptos da magreza excessiva criaram até uma linguagem própria para se referirem à anorexia e à bulimia.

Estas doenças se transformaram respectivamente em "ana" e "mia". É desta forma que as adolescentes — grupo que representa a maioria das vítimas de transtorno alimentar — escrevem em seus blogs (diários eletrônicos), onde trocam experiências sobre suas obsessões por serem magras. Os conteúdos, incluindo mensagens e fotografias são chocantes.


Rede pública ainda não oferece tratamento adequado


Mulheres jovens são as que mais apresentam quadro de anorexia ou bulimia

Além dos consultórios particulares, a rede pública de saúde também oferece tratamento para pessoas que sofrem de transtornos alimentares. Mas, pelo menos nas Unidades de Atendimento Integrado (UAIs), a estrutura disponível é precária.

De acordo com a psiquiatra Mariza Matheus Cuvero, que atende na UAI Pampulha, na instituição não há nutricionista; os pacientes demoram a conseguir agendar uma consulta com endocrinologista e não há nutricionista. Por causa da demanda, os atendimentos individuais ficam comprometidos. "Deveria ter na rede pública um ambulatório somente para tratar dos transtornos alimentares", defende.

Na opinião da profissional, as escolas também deveriam se comprometer com a saúde mental dos estudantes - assim como a educação física -, o que poderia evitar os transtornos psicológicos comuns aos adolescentes e jovens. "As escolas estão muito voltadas para o vestibular", criticou.

Pessoas adultas também podem desenvolver anorexia ou bulimia, principalmente mulheres que estejam com baixa auto-estima.

Sobre o atendimento nos serviços de saúde municipais, a diretora de Atenção Integral à Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, Fabiana de Fátima Brito, informou que 80 psicólogos atendem nas UAIs, nas Unidades Básicas de Saúde, no Programa de Saúde Familiar (PSF) e nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que são seis.

A equipe multidisciplinar conta também com cinco endocrinologistas e quatro nutricionistas, mais estagiários da área, que atendem nos programas de nutrição da Secretaria de Saúde. Psiquiatras são 12 para as UAIs e os Caps e, nesta área, Fabiana Brito afirma que há uma demanda excessiva e que a especialidade é escassa no mercado. "Temos o que é possível ter. Estamos trabalhando na triagem da saúde mental para melhorar a qualidade dos encaminhamentos", frisou.

Anorexia e bulimia nervosas

Anorexia é um desequilíbrio alimentar que leva as pessoas a ficar sem comer. Os anoréxicos são extremamente magros - em média 15% abaixo do peso ideal para a idade, no caso dos adolescentes — mas acham que ainda estão obesos.

Bulimia é caracterizada por compulsões alimentares, seguidas de métodos radicais para se livrar da comida, como o vômito forçado, uso de laxantes ou diuréticos, excesso de exercícios físicos e até lavagem intestinal (enema). Os bulímicos consomem grandes quantidades de comida, que podem chegar a 20 mil calorias, de uma só vez.

Origem dos nomes

Anorexia deriva do grego "an", deficiência ou ausência de, e "orexis", apetite.

Bulimia também de origem grega "bous", boi, e "limos", fome; é como se a pessoa conseguisse comer um boi, no sentido figurado.

FONTE: psiquiatra Mariza Matheus Cuvero

Complicações da doença

Ausência de menstruação (amenorréia)
Anemia
Ansiedade
Fraqueza
Pele ressecada
Queda de cabelos
Redução respiratória
Atrofia dos ossos
Osteoporose
Danos ao sistema reprodutor feminino
Causadas pela bulimia
Depressão e mudança de humor
Dor nas glândulas salivares por causa da indução ao vômito
Úlcera no estômago
Hérnias no estômago e esôfago
Desequilíbrio na excreção
Desidratação
Arritmia cardíaca
Menstruação irregular
Fraqueza e exaustão corporal

Muitas das complicações são comuns aos dois tipos de transtorno.

FONTES: Cooperativa do Fitness e psiquiatra Marisa Matheus Cuvero

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