Os simpatizantes dos Cocão, grupo político que durante décadas mediu forças e dividiu o poder em Uberlândia com os Coió, perdeu um de seus últimos legítimos representantes com a morte do ex-prefeito Virgílio Galassi, confirmada no fim da noite de ontem pela equipe médica do Hospital Madrecor, onde ele estava internado desde o primeiro dia do ano novo. Seu corpo está sendo velado desde às 6h desta sexta-feira no lugar onde muito tempo pôde ser considerado sua segunda casa: a Prefeitura de Uberlândia.
Político de fala mansa, mas de pulso firme, Virgílio foi também um dos últimos “coronéis da política” uberlandense.
Nunca deu o braço a torcer. Nem mesmo para a doença que o perseguiu nos últimos anos de vida e que o levou para um quarto de UTI por três vezes desde agosto de 2007.
A primeira foi no dia 4 do referido mês, quando um exame mais detalhado diagnosticou um câncer de pâncreas. Virgílio Galassi passou o último aniversário, 7 de agosto, se recuperando de uma cirurgia. Deixou o hospital 19 dias depois, mas não se aquietou. Mesmo com a resistência fragilizada, marcou presença em alguns eventos públicos. Pouco antes do Natal, teve novas complicações e voltou a ser internado. Retornou para casa, passou o fim de ano com a família, mas um quadro grave de pneumonia associada à septicemia, detectado justamente no primeiro dia de 2008, o levou novamente à uma unidade de terapia intensiva, de onde só foi retirado ontem à noite, por poucos minutos, para se despedir da família. Era 22h15 quando a infecção sistêmica ocasionou a falência múltipla dos órgãos.
“O seu Virgílio era uma pessoa que estava acima de todos nós... Soube trazer adversários para o seu lado... Foi uma referência para ser seguida. Uberlândia certamente vai reconhecer as coisas que ele fez pela cidade. Foi uma pessoa que amou profundamente a cidade, uma pessoa que ajudou a construí-la”, descreveu o vice-prefeito Aristides de Freitas pouco depois de visitar o hospital ontem à noite ao saber da notícia.
Com um currículo extenso na vida pública, com quase 30 anos de atividades, Virgílio Galassi foi quatro vezes prefeito de Uberlândia, sem contar os mandatos de deputado federal Constituinte e o de vereador, no início da carreira política. Afastado da linha de frente da política local desde seu último mandato como prefeito (1997 a 2000), ele atuava nos bastidores.
Entretanto, não dispensava os compromissos públicos e o contato com a população. Em 2006, por exemplo, com a saúde já fragilizada, esteve presente em vários eventos promovidos pela Prefeitura de Uberlândia, como a inauguração de obras, o lançamento de projetos. Em um deles, na praça Tubal Vilela, pôde sentir de perto a simpatia de antigos eleitores que se amontoaram diante dele para cumprimentá-lo. Também fazia questão de acompanhar as visitas de autoridades a Uberlândia.
No fim de 2006 disse que não tinha mais disposição para contribuir com as decisões políticas que envolviam o Município e, por isso, deixaria o Partido Progressista (PP), ao qual era filiado.
Com 84 anos completados no dia 7 de agosto de 2007, Virgílio Galassi sempre foi um dos maiores entusiastas com o desenvolvimento de Uberlândia. Segundo ele, nem mesmo os maus administradores conseguiriam “segurar” o desenvolvimento do Município. “A cidade sempre foi maior do que os seus políticos”, ressaltou. E ele afirmava isso com propriedade, afinal, administrou Uberlândia por 18 anos.
Na avaliação dos seus mandatos como prefeito costumava dizer que foram anos produtivos e muito bons, até porque sempre contou com bons companheiros, que fizeram com que ele tivesse estrutura sólida nas administrações. Virgílio Galassi dizia que do primeiro para o último mandato houve diferenças significativas. Em 1973 (último ano de sua primeira gestão), havia uma crise porque os recursos eram poucos e os governos muito pobres. Entretanto, ele considerou a última administração a mais difícil da sua carreira, pois o Município perdeu recursos com a Lei Kandir.
Mesmo com as dificuldades, Virgílio Galassi costumava dizer que foram mais acertos do que erros. “Nós acertamos sempre, principalmente na busca do desenvolvimento. Uberlândia é um centro de irradiação e convergência”, disse. Como lição das experiências como prefeito, ele aprendeu que o que faz a diferença é fazer com amor. Como grandes obras realizadas, citava o Distrito Industrial e o saneamento de 100% de Uberlândia.
No fim do seu último mandato, em 2000, Virgílio Galassi dizia-se realizado como homem público, mesmo não tendo feito tudo o que desejava, mas o que foi possível. Ele falava que queria ter feito um pouco mais na área de turismo, que é um negócio do terceiro milênio. Entre as obras de sua Administração estão o estádio do Parque do Sabiá, a maioria dos viadutos e o início da despoluição do rio Uberabinha.
Virgílio Galassi ajudou ainda a trazer a Escola Agrotécnica Federal, quando foi convidado pelo então ministro da Casa Civil, Rondon Pacheco, durante o governo do Marechal Costa e Silva, para a diretoria do Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário, em Brasília, nos fins dos anos 60. Também foi membro fundador da primeira Escola de Medicina de Uberlândia.
O último mandato de prefeito foi conquistado por uma margem apertada. Foram exatos 725 votos de diferença para Zaire Rezende (PMDB), adversário no segundo turno. Zaire obteve 110.070 votos (48,44%) contra 110.795 (48,76%) de Virgílio. “Em toda a minha vida pública jamais deixei de assumir posições firmes, claras e determinadas”, enfatizou em certa ocasião.
Avanço da medicina o salvou aos 4 anos de idade
Casado com Maria Luisa e pai de três filhos (Paulo, Rejane e Regina), Virgílio Galassi nasceu em São Paulo, por uma coincidência interessante, como ele mesmo dizia, porque o seu pai foi convidado a administrar um frigorífico do avô. Terceiro filho do casal Francisco Alessi Galassi e Blanche Santos Guimarães, Virgílio teve uma vida de muitas mudanças. Por causa da atividade, a família morou em Uberlândia, Uberaba, Araguari e em um povoado chamado São Francisco das Chagas, descendo a serra de Goiás, saindo para o norte.
Virgílio Galassi teve outros quatro irmãos, sendo dois já falecidos. Por volta dos 4 anos de idade, devido à pneumonia quase morreu. Porém, foi beneficiado com as primeiras vacinas que estavam sendo aplicadas no Brasil.
Os avós paternos nasceram na Itália, ao lado de Mantova, ao norte, mas se erradicaram no Paraná, em Ponta Grossa. Sobre o avô materno, Clarimundo Guimarães, Virgílio Galassi dizia ter conhecido bem, apesar de não ter certeza se ele nasceu em Araguari ou em Bagagem Antiga, que hoje é Estrela do Sul. A família Guimarães é bem numerosa e parte foi para o Mato Grosso do Norte e lá deram o nome da Chapada dos Guimarães. A avó materna também era de Araguari, Eulina dos Santos. Virgílio Galassi teve um tio-avô que foi prefeito de Araguari por 20 anos.
A primeira escola que freqüentou foi em Uberlândia, a da Dona Carlota — que ficava na rua Princesa Isabel. Depois chegou a estudar em Uberaba, Campinas e São Paulo. “Não posso falar que não tive tempo ou oportunidade para estudar alguma coisa especificamente voltada à agricultura, porque meu pai, com muito sacrifício, formou os filhos que quiseram estudar”, contou.
| Foto: Manoel Serafim/2007 |
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Setembro 2007: Ex prefeito em solenidade no Sindicato Rural |
Ao se afastar da vida pública, o ex-prefeito voltou a se dedicar aos seus negócios particulares. “Meu negócio é terra na cidade e no campo. Conquistei o que tenho promovendo loteamento, construindo casas, essas coisas”, ressaltou o ex-prefeito de Uberlândia Virgílio Galassi.
O empreendedorismo sempre fez parte de sua vida. Ainda pequeno, acompanhava o pai, que tinha algumas charqueadas, em parte do trabalho. “Meu pai era um empresário um pouco cigano, porque o mercado de carne de antes era um mercado de oportunidade do momento. Se havia fase positiva em um lugar, as charqueadas eram instaladas”, disse.
Coincidentemente, o sogro de Virgílio Galassi, Nicomedes, também era charqueador. Nessa época, o seu pai já tinha se afastado da indústria e estava no comércio de carne. Então, resolveu pedir a Nicomedes um emprego para o filho, que ficou de um a dois anos trabalhando na charqueada, na ‘praia’, em período integral. A praia era onde se faziam todos os serviços.
Tanto a família paterna quanto materna eram agricultoras, grandes fazendeiros. Segundo Virgílio Galassi, dos filhos, só ele ficou na fazenda, que, para ele, foi uma coisa pessoal.
Formação política
Virgílio Galassi lembrava sempre da formação dos principais partidos políticos da cidade e da ligação dos seus membros com o Sindicato Rural de Uberlândia. Os primeiros foram a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), que substituíram o Cocão e o Coió. Depois vieram o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Republicano (PR). “O Sindicato Rural era uma mesa de entendimento de partidos políticos”, assegurou.
Segundo ele, os políticos daquela época eram duros, não mais coronéis, porém eram do tempo deles. Durante uma entrevista a uma equipe do Museu da Pessoa, ele declarou: “Graças a Deus nós tivemos coronéis porque foram eles que, naquela época, construíram o que nós temos hoje”.
O Futuro
Em relação ao futuro de Uberlândia, Virgílio Galassi argumentava que os homens do próximo século deviam pensar seriamente na cidade para que ela não crescesse sem limites, o que seria desnecessário e inaceitável. Conforme defendia, era imprescindível que se instalasse a Tecnópolis — centro de pesquisa em tecnologia.
Para o empresário disposto em investir em Uberlândia, ele afirmava que a cidade tem qualidade de vida nota 100 no Brasil, mas ainda alguns problemas. “Na perspectiva do futuro acho que o limite tem que ser o da tecnologia. Não precisa crescer mais, a cidade já tem tudo. É preciso ajudar a região a crescer e ela está crescendo”, definiu.
Virgílio Galassi ressaltava a vocação do Município para cidade-pólo. Ele falava que essa vocação vinha desde os primeiros empreendedores e isso era bom porque fazia parte da cultura do uberlandense, que nunca foi uma pessoa só. “Uberlândia tinha que ser uma cidade exemplo para o Brasil. Isso tem ficado nas gerações”, elogiou.
| Foto: Manoel Serafim/9/10/2007 |
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Outubro 2007: Virgílio recebe cumprimento do governador Aécio Neves |
Mandatos
1963-1966 – Vereador e presidente da Câmara
1970-1973 – Prefeito (Aliança Renovadora Nacional – Arena)
1978-1982 – Prefeito
1987-1988 – Deputado federal Constituinte (Partido Democrático Social – PDS)
1989-1992 - Prefeito
1997-2000 – Prefeito
O velório acontece no saguão do Centro Administrativo da Prefeitura de Uberlândia. O enterro está marcado para esta sexta-feira, às 17h, no Cemitério São Pedro.