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Nem mesmo o céu como limite
Ethevaldo Siqueira comenta as inovações geradas pela terceira geração da telefonia móvel
Repórter
Atualizada: 21/06/2010 - 18h14min

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Com a expertise proveniente dos 41 anos de trabalho no jornalismo especializado em telecomunicações, o colunista do jornal “Estado de S. Paulo” e da rede de rádio CBN Ethevaldo Siqueira fala, com propriedade, quando o assunto é inovação tecnológica nesta área.

De Helsinque, na Finlândia — onde estava a convite do governo do país escandinavo para ver de perto o sistema de informação utilizado em favor da educação e da pesquisa pública finlandesa —, ele atendeu a reportagem do CORREIO de Uberlândia por telefone e traçou um panorama sobre as inovações que virão com o lançamento da terceira geração da telefonia móvel – 3G – no Brasil.

Entusiasta, Ethevaldo comenta a amplitude de possibilidades de comunicação e interação que a tecnologia com a internet (remota) em alta velocidade trará aos usuários. Baseando-se em informações e projeções de mercado, o jornalista estima uma difusão da telefonia celular, impulsionada em parte pela 3G, com uma quantidade de linhas habilitadas igual ou superior ao número de habitantes no Brasil até 2012. Uma previsão de aproximadamente 200 milhões.

Contemporâneo e profissional ativo durante o início e a evolução das telecomunicações nas últimas quatro décadas no Brasil e no mundo, o jornalista, que trabalhou durante anos em redações que só tinham máquinas de escrever e telex, hoje é um apaixonado pelas engenhocas eletrônicas do terceiro milênio. Dispositivos que ele utiliza tanto para o lazer quanto para o trabalho e vice-e-versa, até o ponto em que ambos podem se confundir.

O jornalista antevê a chegada plena da televisão no celular em pouco tempo. Para suportar a melhoria quantitativa e qualitativa da imagem ao vivo nos aparelhos com a tecnologia 3G HSDPA (High Speed Downlink Packet Acess), Ethevaldo Siqueira destaca a progressão aritmética (2, 4, 8...) das velocidades de transmissão e recepção de conteúdo pelas redes de telefonia sem fio nos próximos anos.

O céu não será o limite para este crescimento exponencial do volume de dados transmitidos para equipamentos móveis, seja para celulares e laptops, seja para similares cada vez mais leves e velozes, com melhor desempenho em várias funções concomitantes e autonomia de bateria e telas mais nítidas e interativas. Confira os principais trechos da entrevista com o jornalista Ethevaldo Siqueira e imagine o que está vindo por aí.

CORREIO - Em uma edição recente da sua coluna na rádio CBN (que pode ser ouvida também pela internet na página www.cbn.com.br), você disse que nem mesmo as projeções mais otimistas dos representantes do setor conseguem acompanhar o avanço real da telefonia móvel no Brasil. A projeção é que dos atuais 125 milhões de linhas em serviço haja um aumento para 200 milhões de números celulares habilitados em menos de quatro anos? 

Ethevaldo Siqueira - Exatamente. Estamos caminhando para a universalização total do celular no Brasil. Na realidade, não significa que todos os habitantes vão ter celulares. Muitos deles terão dois ou três. Eu tenho quatro, por exemplo. O número de aparelhos vai ser igual ou maior ao da população, como já acontece em Brasília. Vai acontecer em Salvador daqui um mês e assim por diante.

CORREIO - Analistas de mercado e diretores das empresas afirmam que a tecnologia 3G será um dos fatores responsáveis por essa universalização da telefonia móvel, além do aumento do poder aquisitivo das camadas populacionais mais pobres e da intensificação da concorrência entre as operadoras. Como fundamentar essa avaliação do setor?

Ethevaldo Siqueira - A cada dia, você aumenta a possibilidade de mais pessoas utilizarem o celular para novos serviços. Ele traz opções novas de aplicativos e serviços. É possível transmitir e ter acesso à internet banda larga com mais velocidade nos downloads e mobilidade no laptop. Além de baixar vídeos, jogos, MP3, o que seja. Sem contar fotografias, GPS... Há uma montanha de serviços que ninguém imaginava há 20 anos, quando o celular nasceu. As operadoras também vão querer se defender para continuar ocupando os seus espaços, com vantagens que são promoções e tarifas menores. Isso é o que está acontecendo no mundo, mas o Brasil ainda não é um campo para grandes perspectivas para a terceira geração. Quem vai usar, em primeiro lugar, é a classe A. O topo da pirâmide social. A minha faxineira não vai fazer download com um celular com acesso à internet rápida.

CORREIO - Mas eu imagino que ela já faça download de ringtones (toques musicais de telefone). Isso já é uma coisa difundida nas classes D e E, por exemplo...

Ethevaldo Siqueira - É... Só que é preciso que ela entenda o serviço. Às vezes, não é só o poder aquisitivo, também é o nível cultural. Ainda há camadas que estão usando exclusivamente o celular com a comunicação de voz e quase sempre a cobrar.

CORREIO - Os consumidores da telefonia móvel pré-paga?

Ethevaldo Siqueira - Exatamente. Como o País tem 80% de aparelhos pré-pagos, muitos jovens vão utilizar alguns recursos, porque desses 80% a metade é formada por jovens. Eles têm interesses, como o seu exemplo de baixar ringtones. Eles vão fazer outras coisas, como baixar música MP3, acessar a internet, porque os jovens conhecem bem a internet.

CORREIO - O senhor viu a televisão nascer, via satélite. Hoje há um namoro, ainda meio tímido, da telefonia móvel com a televisão. No seu livro “2015 – Como viveremos” (Editora Saraiva, 2005), o senhor escreve sobre a revolução tecnológica advinda com o transistor, que proporcionou a popularização da televisão na segunda metade do século 20. Atualmente, os aparelhos de TV têm uma qualidade de imagem excelente, mesmo em transmissões VHF ou UHF (TV aberta). Quando teremos essa mesma qualidade de sinal e imagem da televisão transmitida ao vivo em telefones celulares?

Ethevaldo Siqueira - Muito rapidamente e à medida que tivermos a televisão digital implantada no Brasil. Ainda mais por sermos um povo que gosta muito de televisão. Ela é o mais popular dos entretenimentos e está presente em mais de 94% dos domicílios do Brasil. Não há nada mais popular. Nem o rádio chega a isso, são 89%. Ainda não há o hábito cultural de ver TV no celular e a tecnologia, até agora, não permitia uma boa qualidade. Eu calculo que entre três e cinco anos teremos, seguramente, este mesmo nível de imagem da TV no celular. Não haverá uma explosão no consumo porque os aparelhos ainda serão caros, aqueles preparados para a TV digital. Mas haverá uma decolagem do processo e a expansão vai ser muito rápida. Em 10 anos teremos um grande percentual dos usuários de celular recebendo televisão digital com a melhor qualidade. Não só para ver na tela pequena do celular, mas para plugar no laptop e ver em uma tela maior.

CORREIO - A exemplo do que já acontece com os receptores pen drive de TV digital (dispositivos disponíveis hoje a um preço relativamente barato — menos de R$ 300 — que, inseridos na entrada USB de um laptop, permitem assistir à TV digital onde houver o sinal sem necessidade de conexão com a internet)?

Ethevaldo Siqueira - Exatamente. Mas não só por cabo ou ligação USB, também sem fio, pelo próprio celular. A memória flash hoje já é uma realidade para armazenar vídeos e dados nestes aparelhos. Hoje elas já têm 5, 10 giga, com capacidade para carregar milhares de fotos e horas de vídeo.

CORREIO - Por falar em capacidade de armazenamento, nós vimos o salto do megabyte para o gigabyte de uma maneira muito rápida. Hoje já se fala em terabyte. Em quanto tempo essa nova denominação estará disseminada?

Ethevaldo Siqueira - Rápido. E será uma capacidade muito grande de armazenamento. Um terabyte são mil gigabytes. Podemos imaginar o que você faz com mil giga. Eu tenho capacidade de armazenar no gravador digital do decodificador da televisão por assinatura via satélite 160 giga. Dá para gravar 15 dias de televisão. Se colocarmos um terabyte, eu teria seis meses de gravação ininterrupta da programação da televisão. Você não vai precisar disso tudo em um celular, inicialmente.

CORREIO - O que esperar, então, das gerações futuras da telefonia móvel?

Ethevaldo Siqueira - O salto ainda maior não vai ser o da terceira geração agora. É o que ela vai dar nos próximos anos com o que se chama de LTE. Em inglês, Long Term Evolution, que significa evolução em longo prazo. Esse é o nome da tecnologia que vai permitir, nos primeiros saltos e num primeiro momento, ao Triângulo Mineiro e ao Estado de São Paulo facilmente a comunicação a 3,6 megabits por segundo. O segundo salto vai para 7,2 megabits por segundo. O passo seguinte será dobrar os 7,2 para 14,4 Mbps. Daí para frente, já existe tecnologia para chegar a 100 megabits por segundo. Isso é o que vai permitir a evolução para a chamada quarta geração. Um filme de duas horas vai poder ser baixado em 14 segundos nesta velocidade. Isso é um horizonte ainda maior, de cinco a 10 anos.

CORREIO - Há inúmeras possibilidades de evolução?

Ethevaldo Siqueira - Há tecnologias que permitem fazer coisas que ainda não têm aplicativos ou conteúdos existentes. Um dos exemplos é a fibra ótica, que existe no Brasil há algum tempo e em que Uberlândia é uma cidade pioneira. Há ligações São Paulo/Rio, São Paulo/Belo Horizonte, São Paulo/Brasília, mas hoje é utilizada apenas 10% da capacidade dessas fibras. Elas poderiam transmitir muito mais coisas. O que seria isso: centenas de canais de televisão. Mas nós não temos conteúdo para suprir essa capacidade. Nós hoje ainda não temos nem conteúdo em alta definição suficiente para a televisão digital.

CORREIO - Hoje, o Iphone e as tecnologias multi-touch (de telas sensíveis ao toque dos dedos) estão na crista da onda. O futuro caminha neste sentido para produtos com uma interface mais agradável e intuitiva?

Ethevaldo Siqueira - Sem dúvida nenhuma. São tecnologias que facilitam de uma maneira extraordinária o uso. A minha queixa como usuário de celular é que os meus dedos são maiores do que as teclas. O Iphone reproduz um teclado do tamanho da ponta do seu dedo e é uma tecnologia sensível ao toque que lhe abre o cardápio e dá todas as opções. É a interface do futuro. Os telefones vão caminhar neste sentido, não todos, mas esta é a tendência.

CORREIO - O senhor neste momento está na Finlândia, um dos países mais adiantados mundialmente em relação à telefonia móvel. Terra da Nokia. Quais as reações que o senhor tem observado dos executivos da empresa finlandesa em relação à concorrência da Apple, com o Iphone, e a tecnologia da tela sensível ao toque, principalmente agora, quando o mercado espera que o Iphone 3G seja lançado nas próximas semanas?

Ethevaldo Siqueira - Todos os concorrentes, nem todos falam, mas todos estão se preparando para ter um equivalente (ao Iphone) e utilizar a mesma tecnologia do touchscreen. A Sony já tem, a LG também.  Eles estão vendo que é uma facilidade muito grande. Quanto mais fácil o uso de um aparelho, mais interesse ele passa a ter.

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