Busca









Consumidor despreza taxa de juros
Produtos custam até mais que o dobro do preço à vista nos financiamentos
Repórter
Atualizada: 05/07/2008 - 01h13min

Média (0 votos)

Alterar o tamanho
do texto


A dona de casa Terezinha do Carmo Freitas Oliveira estava saindo na tarde de sexta-feira de uma loja de eletrodomésticos satisfeita com a compra que tinha feito, um aparelho celular que será pago em 15 parcelas de R$ 26,70. À vista, o produto vendido por R$ 149. Com o financiamento, a consumidora vai pagar 168,79% a mais pelo aparelho, totalizando R$ 400,50.

Os juros mensais são de 15,98%, enquanto a inflação acumulada do Brasil em um ano — de junho de 2007 a junho de 2008 — foi de 5,89%. Mas Terezinha Oliveira disse que não perguntou qual era a taxa de juros e o vendedor também não a informou espontaneamente. “Achei baixo o valor da prestação e comprei.”

O exemplo da consumidora é repetido diariamente nas lojas, principalmente de eletrodomésticos e eletroeletrônicos: muitos consumidores não dão atenção às taxas de juros para financiamentos e a maioria dos vendedores não faz questão de informar. 
  
Muitas vezes o consumidor faz a compra a prazo sem conhecer o peso dos juros que está se comprometendo a pagar. Ouve a oferta na loja de que poderá pagar o bem em suaves prestações, com juros fixos e outras facilidades, invariavelmente apresentadas como vantagens.

De olho nesse consumidor, o varejo desenvolve estratégias cada vez mais atraentes. As ofertas prometem parcelas pequenas, prazos estendidos, entrada facilitada e até mesmo preço à vista parcelado, sem juros.

Diferentemente dos cerca de 69% dos brasileiros que consideram o crédito uma ferramenta conveniente de consumo, a auxiliar administrativo Luciana Senno Costa Franco Santos disse que raramente compra no crediário, porque sabe que até mesmo no preço à vista anunciado na etiqueta existem juros embutidos. “Os comerciantes usam uma margem de lucro maior para dar um desconto caso o cliente peça. Mas eles estão sempre ganhando”, afirmou. Luciana Santos costuma seguir a recomendação dos economistas de poupar e comprar à vista e ainda negociar desconto e, com isso, foge da venda de um segundo produto, o crédito.   

O aposentado Dílson Ferreira Gervásio também costuma fazer poucas dívidas e quando decide comprar no crediário avalia o valor da prestação e o produto, porque sabe que a taxa de juros é alta. “Todo consumidor sabe que as lojas utilizam o parcelamento como estratégia de venda e que os juros são altos, mas, muitas vezes, não tem como comprar à vista”, disse. 

O economista e diretor do Centro de Estudos Políticos e Sociais (Cepes) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Carlos Diniz, orienta que os consumidores brasileiros devem fazer uma pesquisa de preços antes de comprar e aprender a exigir seus direitos. Segundo ele, o fato de não se informar sobre a taxa de juros é uma falta de cultura que precisa ser trabalhada.

IOF e inflação elevam taxas

Com o fim da cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) desde janeiro deste ano, os financiamentos ficaram mais caros por causa do aumento de 0,38% no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Outro fator que tem feito as operações de empréstimo e crediário menos amistosas é o aumento da inflação.

Para manter os preços sob controle, o Banco Central — que já admite que a inflação deve ultrapassar a meta central prevista pelo governo de 4,5% — aumentou neste ano duas vezes a taxa básica de juros. No Brasil, 80 milhões de pessoas ou empresas possuem algum tipo de empréstimo ou financiamento e algumas pagaram nos últimos 12 meses mais de 150% de juros no cheque especial, por exemplo.

O economista da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Carlos Diniz afirma que os juros ficam mais caros quando há inflação e que os cuidados precisam ser redobrados ao assumir uma dívida a longo prazo. “Com a inflação perde-se a referência dos preços. Sem contar que ela corrói o poder de compra”, afirmou.  

Pagar à vista rende desconto

Nas vitrines, os cartazes anunciam o preço à vista parcelado em três vezes sem juros. Este tipo de estratégia é usado por alguns comerciantes para estimular o consumidor a parcelar sua compra, porque os juros estão embutidos e a margem de lucro é maior.

Vendedora de uma loja de bolsas no hipercentro de Uberlândia, Tânia Mara Vieira disse que o parcelamento do preço é uma promoção, mas confirmou que, se o cliente optar por pagar à vista e em dinheiro, é possível dar um desconto que varia entre 5% e 15%. Entre as opções está uma bolsa que custa R$ 270 à vista ou três pagamentos de R$ 90.

A empresária do setor de calçados Vilma Rosa de Lima disse que o cartão de crédito é o principal meio de pagamento no varejo e que muitos consumidores querem tirar proveito dele exigindo desconto no preço anunciado para depois parcelar a dívida. “É por isso que só dou desconto no preço da etiqueta se o cliente pedir e pagar em dinheiro.”

O gerente de uma loja de calçados Aldecir Roberto afirmou que a estratégia de parcelar o preço à vista sem juros é imposta pela concorrência do mercado.

Esse tipo de artifício do varejo vai acabar assim que entrar em vigor a lei que proíbe que compras à vista e a prazo tenham preços iguais e garante desconto proporcional para quem quer liquidar financiamentos antes do prazo prestabelecido. O projeto já foi aprovado no Senado e na Comissão de Defesa do Consumidor na Câmara, mas precisa ser aprovada em plenário na Câmara dos Deputados.

Uma loja de vestuário feminino no hipercentro de Uberlândia já pratica o que prevê o projeto de lei. A vitrine traz um cartaz que esclarece aos clientes que o preço afixado nas peças é para pagamento parcelado e que, para compras à vista, o desconto é de 7%.   

Como calcular a taxa de juros:

1- Encontre o valor P = valor do produto que está sendo adquirido menos o valor da entrada
2- Encontre o valor K = valor de P (encontrado no passo 1) dividido pelo valor da prestação
3- Localize este valor no corpo da tabela de acordo com o número de prestações. Deslocar para a esquerda na tabela até encontrar a taxa de juros correspondente

Exemplo prático

* Imagine um eletrodoméstico que está sendo vendido por R$ 130,80. Um consumidor vai comprá-lo mediante o seguinte plano de financiamento: uma entrada de R$ 15 mais 10 prestações de igual valor. Para encontrar o valor dos juros que estão sendo cobrados na transação acima é só seguir os passos acima.

1 – Valor do produto comprado menos a entrada: R$ 130,80 – R$ 15 = R$ 115,80 (Valor P)
2- O valor encontrado na operação anterior, R$ 115,80, deve ser dividido pelo valor da prestação, R$ 15. Então R$ 115,80/15 = 7,72 (Valor K)
3- O valor 7,72 e o número de prestações, nesse exemplo são 10, conduz a uma taxa de juros de 5%

Box 2

Dicas para o consumidor

• quanto maior a quantidade de parcelas assumidas em um financiamento, maiores são os juros mensais
• verifique se há diferença no preço à vista e a prazo
• tente poupar e fazer o pagamento à vista
• negocie desconto no preço de vitrine
• pergunte ao vendedor qual a taxa de juros aplicada no financiamento
• não se preocupe apenas com o valor das prestações, mas calcule o valor final e veja por quanto sairá o produto no fim do financiamento


Envie por e-mail


Erros?



Imprima



Recomende:
(Avalie a matéria)




Foto

Vídeo

Áudio




Além dos prazos estendidos, outra estratégia do comércio ...









.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletronico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Correio.