Busca









Sons do sertão estão urbanizados
O caipira agora está moderno e responde pelo nome de universitário
Repórter
Atualizada: 29/08/2008 - 22h31min

Média (0 votos)

Alterar o tamanho
do texto


As letras das canções são as mesmas que os pais, tios e avós de muitos adolescentes de hoje ouviam algumas décadas atrás. Mas as músicas não são as mesmas. É o sertanejo universitário que traz canções do estilo caipira ou de raiz, como é mais conhecido, numa roupagem diferente, com batidas mais fortes e em um ritmo muito mais rápido.

Como o próprio nome define, ele surgiu no meio universitário para dar um fôlego ao estilo e atrair justamente o público jovem que, até poucos anos, só escutava canções de outros ritmos, como pop, rock e axé.

Estas canções, cantadas com uma nova aparência, e que caíram no gosto de vários jovens, geram polêmica entre ouvintes e estudiosos, principalmente aqueles que cresceram ao som de duplas como Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Belmonte e Amaraí, Pedro Bento e Zé da Estrada, ou do cantor e compositor Gerson Coutinho da Silva, o Goiá, da cidade de Coromandel, há aproximadamente 180 quilômetros de Uberlândia.

Para o historiador e crítico da música popular brasileira Antônio Pereira da Silva, este novo estilo da música sertaneja, denominado universitário, é mais uma prova de que as canções caipiras vêm se deteriorando com o passar dos anos. “A tendência é urbanizar e quanto mais ela se urbaniza menos autêntica fica. Os motivos sertanejos, as histórias que viravam canções caipiras acabaram. Se este novo estilo é chamado de universitário, isso prova que a música raiz está se acabando, pois não existem universidades na roça”, disse Antônio Pereira, que possui em sua casa um acervo de 20 mil discos de vinil.

Esta não é a primeira vez que a música caipira passa por transformações. Antônio Pereira conta que o estilo surgiu no século passado. A maioria das letras das canções deste gênero trazia os motivos rurais. Narravam o trabalho no campo, o amor, a tristeza e as tragédias, tudo tratado de uma forma singela, machista, fatalista (dramática) e rústica (sem nenhum tipo de tecnologia para melhorar as vozes dos cantores).

Por volta de 1929, a música raiz começou a traçar um caminho de urbanização, mas as origens caipiras permaneceram por mais de uma década. Na segunda metade dos anos 40 surgiram duplas femininas, como Cascatinha e Iãna, as Irmãs Galvão e as Irmãs Castro. Já nos anos 50 outros gêneros urbanos, como o bolero, começam a invadir as músicas caipiras. Por volta da década de 80, o estilo caipira se popularizou e atingiu as grandes elites, com as primeiras aparições de duplas como Chitãozinho e Xororó, Zezé Di Camargo e Luciano e Leandro e Leonardo.

Hoje são poucos os cantores que ainda preservam o gênero caipira em suas músicas, segundo Antônio Pereira. Ele cita o cantor uberlandense Pena Branca como um dos únicos que mantêm este estilo vivo. “As coisas se modificaram. Antigamente as duplas tocavam com duas violas, hoje é com apenas uma ou nenhuma. As músicas que a maioria das duplas cantam são comerciais. São letras pejorativas, com duplo sentido. O caipira de verdade conta suas histórias do passado, sem, às vezes, nem precisar falar palavras erradas como ‘nóis’, ou os ‘zotô’. Na verdade o caipira não é quem fala errado, mas quem nasceu e cresceu na roça. São pessoas fortes, pacatas e ativas”, disse o cantor Pena Branca. 

A história começou com a dupla de Campo Grande

Divulgação

Começaram a fazer shows e atrair os alunos da faculdade para ouvir sons sertanejos

Os cantores sertanejos João Bosco e Vinícius são considerados os pioneiros do estilo universitário. A história começou em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no início do ano 2000. Na época, João Bosco fazia o curso de Odontologia e Vinícius, Fisioterapia. Na universidade, os dois perceberam que havia vários estudantes de cursos que não eram ligados ao campo, como Veterinária e Agronomia, que eram fãs de algumas canções caipiras.

A dupla, que nas horas vagas se apresentava entre amigos, em bares e boates, começou então a distribuir cortesias dos locais onde tocavam para estes universitários. A sacada deu certo. Logo caíram no gosto de vários estudantes e daí em diante ganharam as rádios de todo o Brasil.

Enquanto João Bosco e Vinícius despontavam surgiam no cenário musical os irmãos César Menotti e Fabiano. Assim como a dupla sul-mato-grossense, a primeira idéia dos cantores do Estado do Paraná, mas radicados em Minas, foi conquistar espaço na programação dos bares freqüentados por estudantes. As músicas cantadas com percussão e, às vezes, até mesmo com guitarras, privilegiando o acústico, abriram as portas para que outras duplas que ainda não tinham se despontado no mercado pegassem uma beira e conquistassem também o espaço entre a juventude. Nessa leva chegam Jorge e Mateus, João Neto e Frederico, Victor e Leo, Zé Henrique e Gabriel, Fernando e Sorocaba, entre outros.

Novo estilo movimenta o mercado

No início do mês de julho, a reportagem do CORREIO de Uberlândia acompanhou uma apresentação das duplas João Neto e Frederico, Zé Henrique e Gabriel e Zezé Di Camargo e Luciano. As três duplas cantaram em um evento no espaço de shows do Camaru. O público que prestigiava as apresentações era formado em sua maioria por jovens de classe média que não se importaram em pagar R$ 50 para disputar um espaço apertado entre mais de 20 mil pessoas na pista, ou até R$ 100 reais para assistir a cerca de cinco horas de show de um camarote com mais de 5 mil pessoas e que não oferecia visibilidade a todos os espectadores.

Na sexta-feira, na 45ª Exposição Agropecuária de Uberlândia, foi a vez de a dupla Alex e Gabriel subir ao palco no mesmo local. Os dois — assim como outras centenas de duplas que surgem no cenário musical brasileiro — também seguem divulgando o estilo universitário.

O cantor Gabriel atribui o sucesso do estilo universitário à juventude que passou a assumir o gosto pela música sertaneja e às duplas que estão buscando mudanças para atrair o público. “Esta nova geração da música sertaneja está mudando a cara do gênero não só em Minas Gerais, mas em todo o Brasil. Na maioria das festas, são as duplas novas que atraem o maior número de pessoas para os shows. Virou sucesso”, disse.

Gabriel acredita que o sertanejo universitário não chegou para acabar com o estilo caipira, mas para divulgá-lo entre os jovens que, até pouco tempo atrás, desconheciam ou banalizavam a música sertaneja. “Hoje se você perguntar a todos estes cantores do estilo universitário, todos dirão que o que mais gostam são dos cantores de canções caipiras. Eles se espelharam nas músicas raiz, por isso acredito que estamos levando a música sertaneja a locais que ela ainda não havia chegado, como no caso das universidades”, afirmou.


Envie por e-mail


Erros?



Imprima



Recomende:
(Avalie a matéria)










.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletronico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Correio.