Ele trocou os palcos pela criação, pela pesquisa e pelo ensino da moda. O premiado coreógrafo e bailarino uberlandense Deferson Melo, um dos precursores da dança em Uberlândia e já teve momentos gloriosos na área em Uberlândia, Salvador e Curitiba e se destacou como um dos coreógrafos mais promissores do País, poderia ter alçado vôo e, a exemplo de outros uberlandenses, seguido uma carreira internacional. Mas, hoje, ele se revela satisfeito por ter encontrado na moda o espaço de convergência de todas as suas experimentações artísticas.
Graduado em Artes Plásticas, formação recorrente à sua criação na moda, ele considera que as mudanças ocorridas estão mais no formato do que no processo da criação propriamente dito. Para ele, o que mudou foi o relacionamento com o público. Se antes, o ex-bailarino, que já criava e executava os seus próprios figurinos, tinha um contato direto com o espectador, hoje, o estilista tem a intimidade com o seu consumidor. De qualquer modo, a história do movimento e da plasticidade está visceralmente presente em sua criação.
Com profundas reflexões e ciente da abrangência e das necessidades do mercado e das relações do consumo, Deferson discorre muito sobre o lado conceitual da moda e ainda mais sobre as perspectivas dos novos criadores que vão surgindo para desenvolvê-la. E é com parte deles que faz questão de compartilhar seus conhecimentos, na posição de professor em uma das faculdades de Moda da cidade, conhecimentos estes adquiridos ao longo de muitos anos na academia, nos palcos, na produção de peças de vestuário e objetos de arte e, sobretudo, na observação da vida, com os olhos de artista sempre curiosos e dispostos a coreografar a vida, seja para dançá-la, seja para vesti-la.
CORREIO: O conhecido Deferson Melo, bailarino e coreógrafo, de repente é estilista e dá aulas em uma faculdade de Moda. Como foi essa mudança?
DEFERSON: Essa mudança, na verdade, foi incentivada por vários fatores. O principal deles é o mercado mesmo. Eu vivi aqui, em Curitiba e em Salvador bons momentos das artes cênicas, área à qual pertenço. Mas quando retornei para Uberlândia, a dança havia dado uma enxugada. Hoje se produz muito menos do que naquele tempo. O mercado foi ficando escasso pra mim.
CORREIO: Mas, mesmo como coreógrafo e bailarino, você já tinha um processo criativo voltado para a roupa, no caso, a confecção de seus próprios figurinos...
DEFERSON: Sim. Essa transição ocorreu exatamente porque eu me permiti, porque o meu trabalho sempre foi calcado na questão da estética, da imagem. O meu trabalho sempre foi de criar e produzir o figurino de modo bem intrínseco à idéia da concepção coreográfica.
CORREIO: Há anos, você criou uma coreografia intitulada “O Costureiro”. Isso já seria, ainda que de maneira intuitiva, o prenúncio de um futuro na área de moda?
DEFERSON: “O Costureiro” nasceu em Curitiba. Ele foi feito sob encomenda para a inauguração de uma loja de tecidos. Pensei em valorizar as habilidades manuais, em propor um olhar diferenciado para elas. Foi uma tentativa de resgatar a figura da costureira, cada vez mais em falta no mercado e despertar na memória das pessoas o valor da costura sob medida, comum no passado. Foi uma experiência interessante. Nesse evento, durante a coreografia, eu distribuía roupas de bonecas, que era a lembrança que a loja dava aos convidados. Lembro-me que eu preferi receber o cachê em tecido. Ele virou minhas primeiras calças, blusas, peças que eu criava e usava para fugir um pouco do que o mercado oferecia e não me agradava muito. Depois o espetáculo foi amadurecendo e eu o dancei no Teatro Guaíra para uma grande platéia e em outros lugares, como o Festival de Danças do Triângulo.
CORREIO: E foi em Uberlândia que você começou a criar vestuário para terceiros? Não houve uma época em que você recuperava os jeans das pessoas?
DEFERSON: Eu faço isso até hoje. Eu pegava aqueles jeans desgastados, abandonados mesmo pelas pessoas e os reformulava de acordo com o perfil da pessoa. Eu fazia isso pensando muito na estamparia, aproveitando a própria realidade do acabamento da peça naquele momento e dava outro caráter para a peça.
CORREIO: Este foi o início de um criador de moda para terceiros?
DEFERSON: Sim, foi na reciclagem e na customização que eu comecei na moda para outras pessoas. A partir daí, eu fui para os acessórios. Comecei a produzir bolsas. Como eu vim das Artes Plásticas, a relação com a moda sempre vai concorrer com a arte. Até uma amiga sugeriu que eu deveria ter uma grife com o nome Arte na Roupa, pois essa é a minha característica principal.
CORREIO: Mas não poderia ser dito também que você contempla a área da dança, já que para criar a roupa você tem de pensar no movimento?
DEFERSON: Sim, é tudo composição. Composição coreográfica. Assim como arquitetura é composição de espaços, quando você vai para o estilismo está construindo espaço com a roupa. Na realidade, a essência é comum. O que vai mudando são os materiais, os elementos, os objetivos...
CORREIO: Você quer dizer que, no fundo, você não mudou de área?
DEFERSON: Sim, não mudei de área. É tudo construção de espaço. A diferença é que hoje construo espaço com outro foco, com outro objetivo. Agora, a criação é para envolver o corpo humano. Mas o caminho é sempre o mesmo. Eu ainda tenho vantagem por não ser uma grande empresa, por não estar no mercado de larga escala, de fazer algo mais específico, mais pessoal, com mais ousadia, mais personalidade.
CORREIO: E como você pretende canalizar isso? Algum plano?
DEFERSON: Eu descobri o que quero trabalhar na moda. Eu não quero abrir demais. Quero trabalhar com peças específicas. No momento, o meu desejo é me limitar à criação de bolsas, calças, saias e jaquetas. Peças que possam ser usadas de modo independente.
CORREIO: Você considera Uberlândia um mercado interessante para a moda?
DEFERSON: Eu acho Uberlândia um mercado interessante para o consumo. A cidade, cada vez mais, tem uma grande população de consumidores, para todos os gostos. Uberlândia precisa para aproveitar essa quantidade de consumidores é se profissionalizar. E o que seria se profissionalizar? Seria a somatória de forças, as pequenas empresas devem se juntar para atender a este mercado, que é muito grande. É preciso se integrar a outras empresas e a outros profissionais. Se isso não for feito, as empresas locais serão engolidas pelos grandes magazines.
CORREIO: Os seus alunos, ou parte deles, seriam os responsáveis por este redimensionamento de mercado? Como você os percebe?
DEFERSON: As primeiras turmas eram de pessoas mais velhas, que já estavam no mercado. Hoje tem um público mais novo. Há ainda uma visão distorcida da área. No início, muitos são movidos um pouco pela vaidade, pelo desejo de se incluir em um mundo de personalidades. A partir do segundo período são observadas algumas mudanças, há um processo de amadurecimento que se reflete, inclusive, no comportamento e na maneira de se vestir. O curso, na verdade, forma pessoas para pensar a respeito da moda. Nesse sentido, acho que a faculdade tem cumprido o seu papel.
CORREIO: O que você pensa a respeito? Qual o seu conceito de moda? A moda é estar fora de moda ou é acompanhar as tendências?
DEFERSON: É um conceito muito amplo. Tentando resumir, acho que moda é percepção. Quando o ser humano olha para a sociedade e percebe que tem muita coisa acontecendo ali e que ele pode, de algum modo, usufruir disso e se expressar diante dessa sociedade. Em outros tempos, os papéis eram muitos claros, antes de a indústria da moda se estabelecer. A moda pode influenciar a sociedade, o indivíduo, a relação com outros indivíduos. Interagir com isso, interferir, isso é moda.
CORREIO: E a moda ditada pelos grandes veículos de comunicação?
DEFERSON: Os meios de comunicação hoje supervalorizam a estética. E as pessoas correm atrás disso. Mas o importante é a roupa vestir um corpo com saúde. Se o indivíduo usa uma roupa que tenha bom corte, que foi pensada, tem design, em um corpo com saúde física, essa pessoa é contemporânea. Se uma pessoa gordinha, por exemplo, é bem resolvida e sua obesidade não é resultante de algum distúrbio ou transtorno físico, ela vai transmitir uma imagem de saúde. Se ela se vestir se sentindo bem, ela vai passar uma imagem de quem está na moda.
CORREIO: As coleções freqüentemente remetem a algum tipo de “revival” de outros tempos. Isso reflete alguma crise de criatividade dos estilistas?
DEFERSON: Não acho que seja “revival”. O que acontece é uma revisita àquele momento histórico, com novas tecnologias, com novos caminhos descobertos pela indústria. É uma revisita de uma maneira moderna, atual, mostrando tudo o que a tecnologia conseguiu produzir de novo.
CORREIO: E nessa cadeia produtiva não existe intenção de as coleções serem rapidamente consumidas e descartadas para mover a indústria?
DEFERSON: É assim com toda indústria, uma exigência do próprio sistema, da sociedade capitalista. Um carro não é fabricado para durar muito. O que pode haver é uma diferença de valores. O indivíduo pode adquirir uma peça de maior durabilidade. Se ela vai estar atual ou não em outro momento, já é outra história. Se ficar preso, a moda acaba. O movimento pára.
CORREIO: E é natural isso?
DEFERSON: Como eu disse antes, moda é saúde. É a pessoa acreditar nos seus próprios propósitos e achar o ponto de equilíbrio. Se você me perguntar se é esse o mundo que eu gostaria de viver, acho que responderia que não, mas é este o mundo que está aí.
CORREIO: E que mundo seria o ideal?
DEFERSON: Aquele em que houvesse liberdade para tudo, em todas as áreas, e as pessoas não ficassem reféns das relações de consumo. A massificação é um elemento muito forte. Por outro lado, a moda é um setor que ajuda maravilhosamente a lidar com esse sistema. Se quiser romper com isso, já não é moda mais, é política. É ter atitudes que vão tirá-lo daquele estado. Mas, nesse caso, teria de ser atitude em tudo, até em não tomar aquele simples remédio que pode ser substituído por um chazinho, entre outras atitudes.
CORREIO: No campo da moda, hoje, você lida com outro tipo de público. Tem saudades do público da dança?
DEFERSON: Não, por que acho que esgotei. Como não optei por ir além, como fizeram Wagner Schwartz, Vanilton Laka, entre outros. Eu cheguei ao meu limite. Mudei o percurso. Recentemente, tive a oportunidade de coreografar novamente. Foi tudo ótimo, mas acabei constatando que o meu caminho é mesmo outro. No mundo da moda, há ainda muita coisa por se descobrir. O que tenho gostado é a nova forma de relacionamento com o público, um contato mais direto, mais objetivo, estou gostando disso.
CORREIO: O que você considera tendência de mercado hoje no mundo da moda?
DEFERSON: Acho que é a capacidade de estar antenado a todas as novas tecnologias. Quem lida com moda tem de estar atento a isso: quais são os tecidos novos, os tecidos inteligentes, as inovações, os fios, tudo que a indústria está trazendo de novo. Isso é inevitável para quem quer entrar no mercado da moda. A cada estação há novas variações do mesmo tom. A tecnologia possibilita isso. Já não existe mais moda ditada por outros continentes. As roupas são pensadas e adequadas para cada clima e região. Essas são as tendências corretas. Agora, essa história de a moda é estar usando tal peça é um engodo.
Isso não existe. É uma tendência mentirosa, fomentada por grandes industriais para força o consumo e desencalhar produtos das prateleiras. A única tendência de moda considerável é aquela vinda da cadeia produtiva, a que move a indústria da moda, resultante de um processo de pesquisa, de descoberta.