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Aterro sanitário vira destino de recicláveis
Catadores deixam de recolher os materiais devido à queda nos preços
Repórter
Atualizada: 23/01/2009 - 22h01min

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Nas calçadas, pilhas de papelão e plástico se acumulam. Os condomínios e as lojas não têm mais para quem entregar o material reciclável, antes disputado entre os catadores. A baixa do preço dos resíduos, gerada pela crise econômica mundial, refletiu no meio ambiente e o que antes era sustento das famílias virou lixo comum.

Gari há cinco anos, Milton Simão da Costa conta que era difícil encontrar recicláveis pela rua, mas que há poucos meses tem percebido um volume maior dos materiais na região central da cidade, onde trabalha. “O que não cabe no carrinho, eu junto em um canto para depois o caminhão passar recolhendo”, afirmou Costa.

De acordo com Cairbar Ferreira, encarregado pelo transporte da Limpebrás, empresa responsável pela limpeza e pelo recolhimento de lixo da cidade, os resíduos que os catadores não recolhem são colocados no caminhão de coleta e misturados com restos orgânicos e descarregados no aterro sanitário. “Não separamos nada. Não tem como eu avaliar o que é reciclável ou não, mas, se os catadores não pegam, a gente pega e enterra normalmente”, disse o funcionário da empresa, que recolhe entre 300 e 400 toneladas de lixo diariamente na cidade.

O fiscal do aterro sanitário Paulo Eduardo Silva afirma que tem percebido a chegada de um volume maior de garrafas PET, papelão e outros resíduos reaproveitáveis no local, criado há 14 anos e com vida útil até o segundo semestre de 2010, quando outro aterro já deverá estar funcionando. “Vem tudo junto, mas está chegando um pouco mais desse material. O lado ruim disso é que diminui a vida útil do aterro”, disse o fiscal.

Segundo o secretário de Serviços Urbanos, Wilmar Ferreira, o peso dos recicláveis é insignificante para o aterro municipal, mas, caso os catadores não voltem a trabalhar como antes, a Prefeitura arcará com o trabalho em parceria com as cooperativas de reciclagem da cidade. “Vamos juntar, prensar e mandar para as outras cidades comprarem. Tem que dar um jeito”, afirmou Wilmar.

O secretário municipal de Meio Ambiente, Cláudio Guedes, informou que o processo de coleta seletiva de casa em casa não é feito pela Prefeitura, pois custa seis vezes mais que o processo de coleta de lixo nos moldes convencionais.

Material é desprezado

Muriel Gomes

Recicláveis vão para o lixo por falta de espaço

Em um edifício na região central da cidade, com 48 apartamentos, acumularam-se três tambores de papelão e garrafas PET em cerca de 20 dias, resultado da coleta seletiva praticada pelos moradores. “Antes dava até briga aqui na porta entre os catadores. Hoje vou ter que desfazer do material e colocar no caminhão do lixo mesmo. Dá dor no coração, mas não tenho mais espaço para guardar tanta coisa aqui”, disse o zelador do prédio Manoel Messias.

No comércio, a história é a mesma. “Os catadores pegavam as caixas de papelão na minha mão. De um mês para cá, eu as deixo ali fora o dia todo e ninguém pega. Só à noite me desfaço delas, quando o caminhão de lixo passa”, afirmou Elvis Soares, gerente de uma lanchonete.

Na porta de uma loja de utilidades domésticas, uma pilha de caixas divide espaço com os pedestres. Segundo o gerente, Jéferson Oliveira, às vezes, é preciso levá-las de volta para o estabelecimento e colocá-las de novo na rua, quando as portas se fecham. “Fica com poluição visual na porta da loja, porque dispensamos muitas caixas por dia. Então, depois das 18h, eu coloco lá de fora para o caminhão do lixo pegar à noite”, afirmou Oliveira.

Concorrência diminui

Grafite e Cascavel são os apelidos dos amigos Janeson Duarte e Getúlio Pereira, que moram juntos em um depósito de recicláveis, e, durante o dia, pegam material pela rua. Eles são alguns dos poucos que ainda persistem na profissão e contam que não enfrentam mais problema com a concorrência. “Diminuiu muito por causa do preço. Eu passei em uns outros três depósitos estes dias e estavam até fechados”, afirmou Getúlio Pereira. “Eu ganhava uns R$ 40 a R$ 50 por dia, hoje tiro R$ 17, no máximo R$ 22”, disse Janeson Duarte. “Tem gente que joga até lixo normal no meu carrinho. Então eu separo e coloco no saquinho. Temos a função de também limpar a cidade”, afirmou o catador. 

Vindo de Goiânia para Uberlândia há nove dias, Carlos Roberto Eduardo, que, na quarta-feira, tirou R$ 7 no dia, não pretende ficar muito tempo na cidade. “Vou para São Paulo, lá o preço é um pouco maior”, afirmou.

Isabel Dantas Matos, catadora há três anos, desistiu do trabalho há três meses. Ela conta que ainda há alguns resíduos em casa, na esperança de que o preço volte ao normal e ela possa novamente retornar às ruas. “Eu tirava até R$ 480 no mês, por fim não tirava nem R$ 200. É uma pena, tinham tantos catadores, agora a gente sai e vê a rua suja”, disse Isabel.

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