Depois de cinco dias, a auxiliar administrativa Josiana da Costa Silva, 33 anos, tenta, com a ajuda de familiares, recuperar-se da tragédia que terminou na morte do marido Sizenando dos Reis da Silva, 42 anos, do enteado Salmo Henrique de Freitas Silva, 10, e do filho João Victor da Costa Araújo, 8, no bairro Luizote de Freitas. Em meio a crises de choro e da atenção dos parentes que tentam consolá-la, Josiana, grávida de cinco meses, afirma que perdeu, queimados, os móveis da casa e, sem saber onde vai morar, por enquanto, ficará na casa da irmã em um bairro da periferia de Uberlândia. Com exclusividade ao CORREIO de Uberlândia, ela relatou o que ocorreu no dia anterior e no momento em que o assassino Otacílio Franco Diogo, 53 anos, invadiu sua casa, na sexta-feira, 12, no crime que abalou a cidade.
O que aconteceu na quinta-feira (11/06)?
Na quinta-feira de manhã, ele (Otacílio) soltou alguns tiros de bombinha para assustar o cachorro (Beethoven) e o meu filho João Victor saiu pra verificar o que era e se deparou com ele pedindo para que tirasse o animal de lá. Eu estava bem próxima e, ao ouvir, cheguei até a porta e falei pra ele: ‘Eu vou tirar ele (o cachorro) daí, senhor Otacílio’. E ele falou assim: ‘você quer saber, dá um jeito de sair de imediato’; e já foi pegando a chave da porta e falando que iria colocar os objetos e móveis dele lá dentro.
O que a senhora fez?
Eu entrei em contato com o meu esposo (Sizenando) e ele pediu para que eu entrasse em contato com a polícia e assim eu fiz.
Quando a polícia chegou, o que aconteceu?
Quando a polícia chegou se deparou com o “seu” Otacílio colocando os móveis dele lá dentro. Daí os policiais pediram que ele retirasse, porque, além de ter ameaçado, estaria invadindo (o imóvel). Eu e meu esposo ficamos esperando lá embaixo e os policiais ficaram com ele lá em cima. Eles avisaram que estava encaminhando “seu” Otacílio até a delegacia porque estava preso e pediu que ele devolvesse a chave. Mas ele devolveu a chave errada. Fomos à delegacia registrar a queixa. Eu estava passando muito mal e não dava conta de ficar lá. O delegado disse que demoraria um pouco para nos ouvir e que sairíamos de lá por volta de 20h, e eu não tinha condições de ficar até este horário. Então ele me liberou devido eu estar passando mal e eu assinei um termo. E (o delegado) esclareceu: ‘seu Otacílio, se acontecer algo desagradável (com a família) o senhor vai voltar pra cá e não sai mais’. E ele (Otacílio) disse que tudo bem. E o delegado perguntou quanto tempo precisaríamos para desocupar o imóvel, lembrando que poderíamos ficar o tempo que fosse necessário. E meu esposo disse que sairíamos até o fim de semana.
E depois?
Na quinta-feira mesmo, nós chegamos em casa, eu organizei o almoço e saímos para procurar uma casa; encontramos uma e, quando estávamos acertando o contrato com o proprietário, minha irmã me ligou e disse que “seu” Otacílio tinha desligado a água, a energia e colocado fogo na cama e no colchão dele. As meninas conseguiram apagar o fogo com a pouca água que tinha. Quando nós chegamos, o Otacílio não estava em casa. Nós ficamos no escuro, sem água e sem energia e os vizinhos ficaram indignados com a situação e fomos para a casa de um parente. Meu marido me disse que desocuparíamos a casa no dia seguinte.
O que aconteceu na sexta-feira?
Na sexta-feira, meu esposo saiu com minha filha Amanda (da Costa Araújo, 12 anos) para fechar o contrato e, como estava passando mal, fiquei com a vizinha, mas estava louca pra sair dali. Eu só entrei na casa quando meu marido chegou, por volta de meio-dia. Ele disse que estava tudo certo para mudarmos no dia seguinte. O Sizenando ligou para a avó do Salmo para buscá-lo porque teria dentista às 14h, mas o Salmo estava na casa de um tio no Centro. Depois voltou pra casa com o Salmo, que costumava passar os fins de semana lá em casa. Meu esposo pediu para o Salmo e o João Victor comprarem um saquinho de milho de pipoca. E logo a minha filha chegou com as duas amiguinhas delas (Keanny Carolina Deca e Hyanne Caroline Deca). Fizemos pipoca e estávamos no quarto, eu, meu marido, as três meninas. O Salmo e o João Victor estavam na sala com a vasilha (de pipoca) brincando e logo, por volta de 18h, nós ouvimos um tiro e o meu marido levantou e minha filha falou ‘mãe é o velho’. Meu marido saiu e se deparou com ele (Otacílio) e nós já fechamos a porta do quarto. Daí...(choro).
O que aconteceu no momento que a senhora fechou a porta?
O “seu” Otacílio estava dentro da cozinha, mas eu fechei a porta e não vi nada.
Ele teria feito duas ameaças?
Não, nós fomos à delegacia apenas uma vez.
A senhora fechou a porta e ouviu o quê?
Tiros. Eu não lembro quantos tiros. Não teve brigas, não teve nada, só os tiros.
E o que a senhora pensou?
Pensei que já tinham matado eles.
O Otacílio tentou arrombar a porta?
Logo depois que ouvi os disparos, ele tentou quebrar a porta do quarto e a parede. E nós gritávamos por socorro e logo os policiais chegaram. Quando eu vi que não tinha solução, tentei pular da janela onde estávamos e os policiais pediram que colocássemos o que desse na porta e nós colocamos uma cômoda e arrancamos a porta do guarda-roupa e colocamos para tampar. Eu deitei no chão e comecei a orar pedindo a Deus para tirar ele dali naquele momento... (choro).
Quanto tempo a polícia demorou?
Mais ou menos uns 20 minutos.
E como foi o resgate?
Foi um pouco demorado, porque eles estudavam várias formas de nos resgatar. Mas quando falei das batidas na parede, eles agiram com mais rapidez e nos resgataram pela janela.
A senhora jogou algo pela janela aos policiais?
As meninas escreveram e jogaram o número de telefone para eles ligarem. E a todo instante eu comunicava com os policiais. Foram várias ligações.
Quando a senhora saiu e viu a movimentação de fora, o que pensou?
Eu já tinha noção do que tinha acontecido. Já imaginava e só queria ter certeza, mas eles já nos encaminharam ao pronto-socorro devido ao nenê e logo após nós recebemos a notícia.
Por que ele pediu pra vocês saírem do apartamento?
Ele falava que tinha vendido e pediu a casa para todo mundo.
Além de vocês, quem mais morava no prédio?
Havia um casal com uma criança (apartamento) embaixo, duas mulheres no (apartamento) do outro lado e um (cômodo) que tinha o barzinho. Ele pediu para todo mundo sair alegando que tinha vendido o prédio.
Há uma informação de que ele teria se irritado com as crianças e o cachorro, por isso pediu pra que vocês saíssem. Isso é verdade?
Ele falou do cachorro, das crianças não.
Há quanto tempo vocês moravam no apartamento?
Nós morávamos lá há 28 dias. Com 15 dias, ele pediu a casa e deu mais 15 dias para nós desocuparmos.
O aluguel do apartamento estava pago? Quanto custava?
Sim, estava. Eram R$ 200.
Ele teria pedido um contrato de seis meses para alugar o imóvel?
Não.
A senhora morava com o Sizenando há quanto tempo?
Há dois anos, ele estava separado e eu também, inclusive o Salmo morou conosco um ano e estudou na mesma escola dos meus filhos. Nós convivíamos muito bem.
Onde vocês moravam antes?
Sempre moramos no Luizote desde que nos conhecemos e decidimos ter uma união estável. Morávamos na rua doutor João Manuel Tannus, 299, era um sobradinho também. Já tinha pouco mais de um ano que estávamos lá e a dona pediu a casa porque ia reformar para receber o filho dela que chegaria de Londres, a casa era dele.
Como vocês ficaram sabendo do sobradinho do Otacílio?
Foi através de um conhecido do Otacílio.
E como foi a conversa com ele?
Não quero falar sobre isso.
Como era o Sizenando?
Era uma pessoa tranquila, nós nos conhecemos e passamos a morar juntos. Era um pai atencioso, prestativo.
E os meninos?
Eram amigos, inclusive eu falava que éramos uma família feliz, até nos dias que a gente ia a igreja, o Salmo falava assim: ‘Jô (Josiana), hoje a família feliz vai para igreja’ e começavam a cantar o louvor, os dois (João Victor e Salmo). Nós somos evangélicos e participávamos das reuniões e, quando meu esposo não podia ir, eu ia com as crianças, eu, o Salmo e o João Victor, a Amanda e o Vinícius. Nós éramos uma família muito feliz.
Hoje como a senhora está reagindo a isso tudo?
Não sei te falar... (choro). Ainda não... Imagino que a qualquer instante eles vão voltar; eu tenho que pôr na minha cabeça que isso não vai acontecer, mas no momento não caí na real. Estou muito chocada, estou passando por uma situação delicada devido à gravidez e ao que aconteceu. Não consigo dormir nem me alimentar.
Agora a senhora vai morar com a família?
Não sei ainda. Eu perdi tudo, porque ele (Otacílio) colocou fogo em tudo, o que deu pra resgatar foram roupas e uma cama. Eu estou sem nada... (choro).
Vocês já tinham escolhido o nome do bebê que vai chegar?
Sim, é uma menina, o nome será Nicole Reis Costa... (choro).