Fim de tarde domingueira, chuvinha boa de ouvir e de molhar a terra. Coisa que é até rara na terra de Dona Selma, lá nos confins da Paraíba. Dona Selma, que o próprio nome só lê por letra de outro porque ela mesma não sabe escrever (”escrevinhá”, no dizer dela), cruzou o país e veio dar aqui, na terra do uai. Já ia dizer que com a cara e a coragem, mas no caso dela a coragem vem primeiro. Para tocar a vida com dignidade, faz faxina na casa de outras Selmas. Por certo casa própria, coisa que Dona Selma mesmo de certo só terá um dia por força de um milagre: um bilhete de loteria premiado ou herança de algum semelhante que ‘panhe’ simpatia pelo seu jeito de ser e falar. ‘Tirante’ isso, é o mesmo e velho piparote da fé que toda manhã vem bater-lhe no ombro e anunciar que mais um dia de suor começa. Mais um dia de luta em terra de estranhos. Mas se ‘avexe não’ que esmorecer não é coisa de gente ‘retada’ feito Dona Selma. Uma sacudida no esqueleto e no espírito e lá está ela de pé para mais uma jornada que há de ser tocada com garra igual à dos ‘retados’ que botaram Brasília no mundo antes mesmo que o mundo piscasse os “ói”. Duvide não que é igual que nem certa feita disse o “Mestre Lula”, outro cabra ‘retado’: “Paraíba masculina, muié macho sim sinhô”. E Dona Selma é muito macho, mas não macho do sexo masculino, macho de bravura. A mesma bravura que está no sangue de toda essa gente que cruza o país trazendo na mala um ‘cadinho’ de trapo e uma única certeza: coragem não há de ‘fartá’.
Ave, gente de lá, de longe. A gente de cá lhe tem respeito!
Márcio Paiva (Trivelinha)
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