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Zé dos vasos e o cachorro Fusquinha
"E o bichinho abanando o rabo, todo alegre, olhos remelentos é bom que o diga, mas alegre"
VC CORREIO - Márcio Paiva
Atualizada: 04/03/2010 - 08h50min

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Fim de tarde, noite chegando. Também nós chegamos, minha mãe e eu, para comprar vasos de jardim de um tal Seu Zé. Vaso de cimento cru. Seu Zé é quem faz e vende. Vou chamá-lo assim porque não fomos apresentados. Chegamos e era num barraco na beira da BR 050. Barraco de placa de muro. Lá dentro dois cômodos, um de uns 7m2, cheio de coisas amontoadas: vasos finalizados, vasos por terminar, formas para moldagem de vasos, sacos de cimento e argamassa abertos.

Até aí, tudo bem. Oficina de artista é assim mesmo, pensei. Mas o que dizer do outro cômodo? 5m2 que abrigam um fogão, uma cama, alguns vasos, roupa espalhada. Aquele pequeno espaço era ao mesmo tempo cozinha, quarto e extensão do que podemos chamar de ateliê do Seu Zé. Tudo amontoado, panelas surradas em cima de um fogão que, pelo naipe, nem sei se funciona mais. A geladeira é certo que não funciona. Confesso que fiquei impressionado com o lugar e pensei cá com meus botões: e a gente ainda ‘crama’ da vida que tem. De repente, sinto algo roçando minhas pernas. Era um cãozinho preto, filhote ainda. “Fusquinha, vem aqui!”, disse Seu Zé. Fusquinha? perguntei achando graça do nome. “É, Fusquinha”, disse Seu Zé.

“Um menino deixou aqui, tava quase morto. Então levei no veterinário, botei nome, e agora tá bonzinho”, contou. E o bichinho abanando o rabo, todo alegre, olhos remelentos é bom que o diga, mas alegre. Dali em adiante só tive olhos para o Fusquinha. Combinei com Seu Zé de voltar no dia seguinte para pegar dois vasos. No dia seguinte lá estava eu, conforme combinado, dessa vez com uma câmera fotográfica para fotografar a casa-ateliê do Seu Zé e, principalmente, o Fusquinha. E lá estava ele, lépido e faceiro, observando o Seu Zé trabalhar. Luva em uma das mãos, pincel na outra, arrematava mais um bonito vaso. Nos pés um par de havaianas, uma de cada cor. Tirei fotos, peguei os vasos, paguei ao Seu Zé e dali saí reconstruindo na mente tudo o que vira nas duas vezes em que estive em sua casa-ateliê. Não sei por que naquele momento de introspecção pensei nos escândalos de corrupção do grande circo Brasília. Quanto será que o Arruda tem embolsado em propinas? pensei. Certamente mais que o bastante para que o Seu Zé pudesse ter uma casa decente, um ateliê bacana e o Fusquinha pudesse sentir o prazer de saborear uma nutritiva ração. Com certeza o suficiente para que tantos outros Zés e Marias não morressem a míngua nos corredores dos hospitais.

Quem dera tudo não passasse de um conto de fadas do tipo: “Era uma vez um artista que tinha um lindo cãozinho chamado Fusquinha e os dois viviam com dignidade e felizes em seu aconchegante lar”. Mas infelizmente temos que viver a realidade. E nela o que se pode dizer é que a história do vilão Arruda por certo acaba em pizza, como toda história de terror que tem Brasília como cenário. A única diferença é que dessa vez a pizza não veio sozinha, veio acompanhada de uma oração, a ‘oração dos corruptos’ que dá à política no Brasil contornos ainda mais macabros.

Márcio Paiva (Trivelinha)
trivelinha@netsite.com.br
http://www.trivelinha.blogspot.com

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