Busca








Para melhor atender às suas necessidades, o Correio de Uberlândia quer ouvir a sua opinião. Responda a nossa pesquisa.
 

VC CORREIO: Liberdade de expressão
Imprensa deve ser livre, mas com responsabilidade
Márcio Paiva
Atualizada: 25/03/2010 - 09h53min

Média (7 votos)

Alterar o tamanho
do texto


Nas últimas eleições para Presidente da República, de 2006, em debate ao vivo na TV, o jornalista e apresentador Boris Casoy afirmou categoricamente que o Lula seria reeleito porque os nordestinos eram alienados, que não tinham acesso aos meios de comunicação e que, portanto, sequer sabiam o que estava acontecendo no resto do país. Eu, que acompanhava o debate para ver o desempenho dos candidatos nas urnas, quase caí para trás quando ouvi a declaração do apresentador, que é reconhecidamente um dos mais gabaritados da TV brasileira.

Em sua infeliz declaração, o jornalista fez subentender que se dependesse apenas dos eleitores das regiões sul e sudeste, o Lula dificilmente seria reeleito porque esses eleitores são mais esclarecidos, têm mais acesso aos meios de comunicação etc., diferentemente, portanto, dos eleitores nordestinos, no dizer dele verdadeiros boçais. Ironicamente, porém, terminadas as eleições, quem aparece eleito deputado em São Paulo? Ninguém menos que Paulo Maluf, aquele mesmo que meses antes das eleições passara vários dias na cadeia por conta do antigo processo por apropriação indébita de verbas públicas que a justiça brasileira move contra ele. O mesmo Maluf do velho e conhecido bordão “roubo, mas faço!”. Cabe então perguntar ao Casoy de onde ele tirou a teoria de que os eleitores do nordeste são alienados e os do sul e sudeste esclarecidos. Será que os eleitores do nordeste elegeriam o Maluf? Para mim está claro de onde ele tirou a teoria: da sua soberba, da sua visão preconceituosa. Soberba e preconceito que ficaram escancarados de vez em outra declaração infeliz do apresentador, dessa vez em episódio mais recente. Em 31 de dezembro de 2009, após uma vinheta do Jornal da Band, chamando o intervalo comercial, sem saber que o áudio ainda estava sendo transmitido, Casoy comentou as imagens exibidas anteriormente, que mostravam uma dupla de garis desejando felicidades aos telespectadores da emissora. Assim disse o Casoy: "Que merda: dois lixeiros desejando felicidades... do alto de suas vassouras... dois lixeiros... o povo mais baixo da escala do trabalho...".
Mas não é só o Casoy que desfila diante das câmeras as suas infelizes frases discriminatórias. Quem não se lembra daquele episódio em que os índios receberam a golpes de facão um funcionário da Eletrobrás que foi lá no Rio Xingu, no Pará, para dar uma palestra sobre usina hidrelétrica? Pois bem, o apresentador do Jornal da Globo, cujo nome me foge agora, ao comentar o acontecido, disse em alto e bom tom: “esses índios são mesmo uns selvagens!”. Alto lá, senhor apresentador! Voltemos um pouquinho no tempo e o senhor verá que os índios eram os legítimos donos do Brasil (ou Ilha de Vera Cruz). Não só de um pedacinho de terra lá do Pará não, do país inteiro. Nós, os “civilizados”, como o senhor fez supor, roubamos o país deles e os dizimamos, violentamos suas mulheres, corrompemos seus filhos. Bom, mas paremos por aqui. Para saber mais a respeito do quanto sacaneamos os índios é só pesquisar na internet ou fazer uma breve incursão nos livros de História. Então, quem são os selvagens mesmo?

Que o cara tenha suas próprias opiniões, tudo bem, é um direito de todos, mas é dever de cada jornalista (e os jornalistas sérios e profissionais hão de concordar comigo), pensar bem antes de emitir opiniões preconceituosas e discriminatórias. Afinal, num estado democrático de direito, o jornalista é uma das figuras mais importantes. Sou a favor da liberdade de expressão sim, mas para os jornalistas sérios e profissionais, que estudam a história, que pesam bem os fatos antes de emitir sua própria opinião diante das câmeras de TV ou na mídia impressa. Mas não podemos de forma alguma permitir que os jornalistas de meia-tigela ocupem espaço na TV para expor os seus preconceitos, os seus bairrismos, as suas rixas político-partidárias. Liberdade sim, mas com responsabilidade, como sempre nos ensinaram nossos avós.
Compartilhe:
| | | | |

Envie por e-mail


Erros?



Imprima


Comentários



Recomende:
(Avalie a matéria)





Erramos!





Comentários



Cássio Presunto
15/01/2010 - 16h37min
Mais uma vez a historia mostra que o povo "civilizado" é visto como aqueles que são mestres, doutores ou tem uma formação de invejar. O povo se esquece que com um minimo de capacidade cognitiva o humano consegue fazer milagres, e por culpa da alienação e da falta de educação do povo, pessoas como Casoy podem expor suas ridiculas opniões em horarios tão disputados da nossa TV. Não existe faculdade que ensine honestidade e carater, isso é coisa que vem de berço e infelizmente grande parte da classe mais favorecida parece que não aprenderam. Aí fica a pergunta, é melhor parecer ou ser ?







.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletronico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Correio.