Da glória e dos aplausos ao drama da escassez de recursos para o sustento da organização. É em meio ao contraste entre beleza e adversidade que a ONG Balé de Rua desenvolve seus trabalhos. Sem patrocínio há dois anos, a instituição vive mais um período de crise financeira que ameaça a companhia profissional de dança e o Projeto Novos Talentos, que hoje atende 150 jovens, em Uberlândia.
Desde o início do grupo, há 18 anos, o Balé de Rua se propôs a enfrentar dificuldades. São homens negros, pobres, de baixa escolaridade, vivendo da dança e usando o próprio corpo como ferramenta de trabalho. No compasso do hip hop, pedreiros, boias-frias, mecânicos e office-boys tornaram-se artistas com reconhecimtento internacional.
Os números que acompanham a trajetória da ONG são expressivos. Composta por 15 bailarinos, a companhia já se apresentou em palcos de 10 países pela América do Norte, Europa, Golfo Pérsico e Oceania. Por mês, as despesas totalizam R$ 28 mil entre aluguel e funcionários. Hoje eles não recebem recursos para se manter. A subsistência vem do que arrecadaram em turnês já realizadas.
Segundo o diretor e um dos fundadores do grupo, Fernando Narduchi, o saldo disponível na conta bancária é suficiente para que a organização se mantenha por apenas mais um mês. “A companhia amadureceu técnica e artisticamente ao longo dos anos. Hoje, nosso elenco é de altíssimo nível e sabe lidar com todo tipo de improviso. A única coisa que não acompanhou esse crescimento foi nossa parte financeira. Isso é uma contradição. Talvez por incompetência própria”, afirmou Narduchi.
Alunos se sentem orgulhosos por participar da Cia
Cada bailarino do Balé de Rua recebe R$ 540 de salário por mês, por uma jornada diária de oito horas de trabalho. O último patrocinador da iniciativa encerrou o contrato por e-mail, após cinco anos de parceria. “Temos um projeto aprovado pela Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, mas ainda não conseguimos captar os recursos. Também enviamos projetos para algumas empresas, mas ainda não tivemos respostas”, disse o diretor.
Alexandre Bento da Silva está no grupo há 17 anos e enfrentou o preconceito da própria família, que não via a dança como um trabalho digno. “Tudo o que tenho hoje devo ao grupo, pois foi conquistado com suor, dignidade e superação. Vivo da arte 24 horas e o que me move é o amor à dança e ao Balé de Rua”, afirmou Alexandre, que sente falta de se apresentar mais em Uberlândia e no Brasil.
Inspiração na dificuldade
| Rodrigo Zeferino/Divulgação |
![]() |
|
O Bagaço: Espetáculo surgiu em momentos difíceis |
Mas a crise se transformou em espetáculo. Aí nasceu “O Bagaço”. “Esprememos até a última gota do bagaço. Não tínhamos dinheiro para o figurino, nem cenário. A peça foi ambientada com tintas e farinha de trigo, que era o que nos estava disponível. O que apresentávamos no palco era a extensão da nossa vida.”
As pesquisas da companhia para criação de um novo espetáculo que retrate o atual momento de crise financeira já começaram. Segundo Narduchi, cujos sonhos são remunerar melhor sua equipe e ter uma sede própria para a ONG, o grupo está otimista e confiante na resolução dos problemas. “Se nossos projetos têm qualidade, visibilidade e poder de multiplicação, por que um empresário não teria interesse em patrocinar? Não tenho a resposta para isso.”
A teoria de Narduchi para os tempos de crise é que há duas opções: enfrentar as dificuldades ou ser vencido por elas. Se deixar abater não é a que o grupo pretende escolher. “Estamos canalizando tudo isso para transformar este período em algo positivo”, afirmou.
Grupo é multiplicador de oportunidades na comunidade
| Angélica Peixoto |
![]() |
|
O professor Paulo Augusto com seus alunos na sede do Balé de Rua |
Além de dar oportunidade para o contato com a arte, a iniciativa é o principal meio de formação de novos dançarinos que entram para a companhia. Nove dos 15 profissionais do grupo vieram do Novos Talentos.
Paulo Augusto dos Santos foi o primeiro aluno do projeto a se profissionalizar no Balé de Rua, há nove anos. Como professor, hoje ele se orgulha em servir de inspiração para as novas gerações. “Assim como tive boas referências aqui dentro, quero transmitir valores e princípios aos meus alunos. O objetivo básico dessa iniciativa é tirar jovens das ruas, formando cidadãos”, afirmou Paulo Augusto.
O ajudante de pedreiro Pablo Costa é aluno há 12 anos. Seu sonho é se profissionalizar na arte. “Se eu parar de dançar, sinto que meu coração também vai parar de bater. Quero ser um dançarino e viajar pelo mundo. Tudo tem a hora certa na vida. Sei que a minha vai chegar”, disse ele.
Stefany Santos Quintiliano cresceu em uma família de dançarinos. O pai foi integrante do Balé de Rua e hoje faz parte de uma companhia de dança francesa. Concentrada e ágil, a menina de 12 anos já ensaia projetando o futuro. “Quando crescer, quero ser bailarina como meu pai. Vejo que estou no caminho para isso.”
História da ONG
Seguindo a forte influência do hip hop estadunidense do começo da década de 90, a ONG Balé de Rua foi criada em 1992, por Marco Antônio Garcia, José Marciel Silva e Fernando Narduchi. A proposta dos três amigos era misturar elementos da cultura popular brasileira à dança de rua.
Oito anos depois, com participação e prêmios em diversos festivais nacionais de dança, o grupo se tornou uma companhia profissional. Neste mesmo ano também começou o projeto Novos Talentos. Hoje a sede da ONG funciona no Centro Cultural Balé de Rua.
A primeira coreografia da companhia apresentada fora do Brasil foi a “E agora, José”, em 2002, durante a 10ª Bienal de Dança de Lion, na França. No próximo mês de setembro, o grupo deve retornar a Lion para temporada de uma semana de apresentações.
Próximas apresentações:
23/7 – Festival de Inverno de Ouro Branco
25/9 – Temporada em Lion, na França
Turnês
1993
- Parece Mentira mas é verdade
- Placar 0 X 0
1994: Romeu e Julieta
1995: Nostradamus
1996: Tatuagem
1997: Homenagem ao Corpo
1998: Favela
1999: Kyrie
2000: Vira Lata
2001: E Agora, José?
2002: O Cubo
2003: O Cubo – Nova versão
2004: O Bagaço
2005: O Corpo Negro na Dança
2006 / 2007: Balé de Rua – Dança e Percussão do Brasil
Biografias
Alexandre Bento da Silva
Faz parte da primeira geração de bailarinos do Balé de Rua. Tornou-se professor e também é voluntário em projetos sociais com novos dançarinos.
Alysson Aparecido dos Santos
Recém integrado ao grupo através do Projeto Novos Talentos. Desempenha a função de bailarino e percussionista. Já se apresentou no Brasil e no exterior.
Denner Moreira
Começou no Balé de Rua assim que a companhia foi criada, em 1992. Destaca-se pelos movimentos fortes e enérgicos do hip hop. Além de dançar, toca percussão nos shows do grupo e também é professor.
Diorge Marlon dos Santos
Entrou na companhia profissional por meio do Projeto Novos Talentos, em 2005. Dois anos depois, participou da criação do grupo “Expressão Sonora”, outra frente de trabalho do Balé de Rua com jovens carentes de Uberlândia.
Fernando Narduchi
Um dos fundadores da companhia. Atua como preparador corporal, diretor artístico e participa da elaboração dos projetos do Balé de Rua.
Guilherme Nascimento de Souza
Começou como estudante da primeira turma do Projeto Novos Talentos, em 1999. Hoje é um dos principais percussionistas do grupo e hoje dá aulas no mesmo projeto social que o trouxe para o Balé de Rua.
Jardel Santos Silva
É dançarino da companhia há 12 anos. Fanático por hip hop, desenvolveu suas próprias técnicas de dança. Tornou-se professor e hoje ministra aulas em dois grupos do Projeto Novos Talentos.
Jivago Afonso Silva
Faz parte da nova geração da companhia e há um ano ingressou no grupo profissional. Foi aluno do Projeto Novos Talentos, do Balé de Rua, e este ano passa a dar aulas.
José Marciel Silva
É um dos fundadores e diretores do Balé de Rua. Dançarino com habilidade para qualquer estilo de dança. Suas acrobacias estão presentes nos momentos de maior complexidade das apresentações. Atua como rapper e professor.
Jhonata Gomes Machado
Integra a nova geração de bailarinos da companhia. Tornou-se profissional através do Projeto Novos Talentos. Desempenha a função de bailarino e percussionista. Já se apresentou no Brasil e no exterior.
Lucas Tupinambá
Recém integrado ao grupo através do Projeto Novos Talentos. Desempenha a função de bailarino e percussionista. Já se apresentou no Brasil e no exterior.
Marco Antônio Garcia
É um dos fundadores da companhia. Atua como coreógrafo, figurinista e cenógrafo dos espetáculos.
Marcos Paulo Bertoldo
Marcos Paulo está no Balé de Rua desde a primeira formação do grupo, quando tinha 13 anos de idade. É um dos dançarinos mais expressivos da companhia. Como professor, transmite o que sabe aos alunos do Novos Talentos.
Paulo Augusto Carmo dos Santos
Paulo começou como aluno do projeto social da companhia, em 2001. Suas principais características são: força, velocidade e saltos. É professor e exemplo para os mais jovens.
Paulo Edson Cardoso Silva
Entrou na companhia profissional em 2003, por meio do Projeto Novos Talentos. Movido pela emoção, sempre contagia o restante do grupo com sua energia. Também é um bailarino multiplicador.
Sandra Mara Silva Gabriel
Entrou no Balé de Rua em 1995. É uma bailarina de força e aproveita todas as oportunidades que lhes são oferecidas. Por sua disciplina e concentração tornou-se referência para outras mulheres que um dia também queiram entrar para a companhia.
Wisney Gomes Mendonça
Como outros profissionais, Wisney também entrou para companhia por meio do Projeto Novos Talentos, em 2004. Força, velocidade e salto são suas características marcantes como dançarino. Desenvolveu elevado nível técnico e está sempre pronto para atuar.
A Companhia
18 anos
15 bailarinos
10 países visitados
150 jovens atendidos no “Novos Talentos”
R$ 28 mil reais em despesas mensais
2 anos sem patrocínio